A realidade movente

Uma expressão comum como “mantenha os pés no chão” é totalmente ressignificada nessas ilhas. Normalmente queremos dizer para o nosso interlocutor que se mantenha firme na realidade sólida das coisas. Em Uros, o chão, é macio e movente, como um colchão inflável. Manter seus pés firmes, lá, é manter-se sempre em movimento. Dificilmente pensamos na solidez das coisas como algo que precisa ser refeito, como algo que depende de trabalho, de dar nós, de amarrar cordas – que podem se romper a qualquer momento. E, no entanto, não será esse o solo mesmo da realidade?

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O Soco no Estômago

Um soco no estômago. É essa a sensação que tenho ao ouvir as suas palavras. Você está correto, mais do que correto. Eu realmente me entreguei rápido demais, mergulhei intensamente em meus relacionamentos prévios. Tive mesmo um número muito grande de namorados e por períodos muito curtos de tempo. Inevitavelmente, as lágrimas chegam enquanto eu…

Cacildis, Tofuzis!

Seis anos atrás adotei uma gata. Eu passava a maior parte do tempo sozinha com ela e, como muitos que moram sozinhos, logo descobri o irresistível hábito de conversar constantemente com a Tofu. Acordar e dar bom dia, de noite, chamar para dormir. E ao longo do dia comentar coisas aleatórias sobre o clima, o…

Cenas cariocas: Etiqueta

Se a UFRJ era minha segunda casa, o ônibus era a terceira. Média diária de 4 horas no ônibus (duas de ida, duas de retorno) é o suficiente para uma pessoa aprender a fazer praticamente tudo no transporte público. E isso era nos tempos anteriores aos smartphones.

Finalmente encontrei

São Longuinho é ótimo, mas não é perfeito. Ele às vezes não vem ao nosso socorro. Talvez sua cota de pulinhos pelo dia já esteja cheia, talvez ele ache que é muito esforço vir correndo buscar um objeto largado sabe-se lá onde pra ganhar só uns pulinhos. Olha que já até tentei aumentar a promessa – sempre de três em três, pois nunca se sabe, pode ser algum número da sorte do santo – mas nem assim consegui convencer o danadinho.

Esquadrinhada

Em 2017 comecei a assinar a Revista 451, para me manter informada sobre os novos lançamentos no mundo dos livros. Hoje, logo depois de minha família ir embora depois de uma visita estendida me peguei sentada na sala, lendo a ultima edição. Pausa para que eu seja visualizada sentada no sofá, desfrutando um café, com…

Nenhum Sr. Pica

Em uma noite do semestre passado, ao voltar para pra casa depois do trabalho, vi o Facebook de um colégio antigo no qual estudei. Lembro bem que eles tinham algumas palestras com ex alunos, volta e meia. Nada mudou nesse quesito. O ex aluno da vez, um tal Sr Pica-das-galaxias, mora no exterior, é cheio…

A memória está cheia de vazio

Algumas pessoas gostam de comparar a memória com um palácio. Um palácio mental. Imagino logo um lugar suntuoso, limpo, arejado, organizado. Cada cômodo é grande. E em cada um, muitas memórias dispostas – como um museu, talvez. Mas eu me pergunto, onde está esse grande palácio? Essa memória que também é a fonte do esquecimento,…

O batom

Começou com as idas ao banheiro na madrugada. A bexiga não aguentava esperar o amanhecer para se descarregar totalmente. As idas, cada vez mais frequentes e numerosas ao banheiro evidenciaram que ela estava ficando velha. Mas indicaram algo mais. Um dia, ao acordar, teve um sensação súbita. Seu corpo não respondia exatamente aos movimentos que…

Da Timidez

  Desde que eu me entendo por gente, sempre fui tímida. Envergonhada. Encabulada. Não sei bem a diferença entre os significados desses termos, mas para mim todos querem dizer uma única e mesma coisa: que o coração acelera, as bochechas ficam vermelhas e em chamas por quaisquer motivos. Ou melhor, por qualquer coisa que me…

O Conto da Aia – Margaret Atwood

“Somos úteros de duas pernas, isso é tudo: receptáculos sagrados, cálices ambulantes.”    Acho que sou uma das poucas pessoas que tem certa preguiça de assistir a séries e filmes e acham mais prático ler os livros nos quais foram baseados. Foi o que fiz recentemente com O conto da Aia. A série vem ganhando…

Ser ou não ser

Quando me perguntam porque resolvi ser professora, acabo fornecendo uma resposta simples e incompleta. Sou professora porque sempre me interessei por isso, porque era o caminho natural, digo, fugindo do assunto. A resposta mais completa seria, com certeza, ampla demais para um bate papo qualquer. Sou professora porque na primeira vez que fui tutora, me…