Visitante noturna

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Acordei no meio da noite ouvindo uma voz. A princípio, distante, confusa, nebulosa. Aos poucos, porém, a voz foi ganhando forma, ganhando corpo, até ficar tão nítida que podia ouvir as inspirações e expirações entre as palavras.

Eu cansei. Dizia a voz. Eu cansei disso tudo. Olhos fechados, continuei ouvindo. Às vezes a vontade é sumir. Aí lembro que era exatamente isso que minha mãe dizia todo santo mês. E então me calo e continuo. A voz estava cansada. Esse cansaço não temcycles2 motivo, não tem origem. Pelo menos, não uma causa que eu conheça e saiba marcar. Mas é tão forte. Tentei voltar a dormir, mas a voz já não me deixava. Havia algum apelo em seu tom, era preciso ouvi-la. Às vezes eu sonho em pular na frente do ônibus, mas isso me parece tão clichê, uma coisa de um filme religioso de mal gosto. Não dá pra ser assim. Arrisquei abrir os olhos, só um pouquinho, e vi, diante de mim, a mulher, seus olhos voltados pra baixo, as mãos sobre o colo, o cabelo embolado num rabo de cavalo. Eu realmente não sei o que fazer. Não tenho grandes problemas na vida, mas não tenho grandes pretensões, não tenho nem uma história a contar.

A mulher estava e não estava na minha frente. Podia vê-la perfeitamente, mas com a clareza de quem sabe ver algo que não está lá. Eu preciso de alguma ajuda, de uma possibilidade para ser alguma outra coisa. Sentei-me na cama e peguei o caderno e o lápis na cabeceira. Ela falava, eu ouvia e anotava. Ela pedia uma história, uma história em que coisas acontecessem. Mas o que me instigava era a ausência de ação, era esse marasmo de sua vida. Não podia lhe atribuir histórias que jamais seriam verdadeiramente as suas. Precisava escrever sobre ela, mas sobre quem ela realmente era. Uma personagem sem perdas, sem ganhos, a quem nada se passa. Uma personagem cujo auge é me aparecer assim, entre o sono e a vigília, e reclamar da vida, daquele jeito que só se reclama quando se está sozinho. Você me parece uma protagonista, disse para ela, que se sobressaltou ao ouvir minha voz. Sentiu, talvez, que estaria fadada a essa história em que nada lhe aconteceria, e que precisaria desfiá-la até o fim, até o último ponto, para podermos, os dois, descansar.

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