Noite do Oráculo

“Flitcraft entende que o mundo não é o lugar sadio e organizado que imaginava, que entendeu tudo errado desde o começo e que nunca percebeu nada de nada.”

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Esse foi o primeiro livro que li de Paul Auster, e ele me encantou por alguns motivos.

O primeiro aspecto que me chamou a atenção é mais subjetivo… Foi o primeiro livro de Auster que li e fiquei positivamente surpresa com a fluidez de sua narrativa e com a precisão de muitas das frases que compõem o livro. Há passagens belas e estranhas, que nos convidam e nos forçam a pensar.

O enredo é bem construído, sendo envolvente. Ficamos sempre com a sensação de que algo está por vir, algum mistério vai se revelar. Qual o segredo do caderno azul português? Qual o segredo de M.R. Chang? Qual o segredo de Sylvia Maxwell? O que se passa na relação de Gracie e Nick Bowen? São muitos os suspenses levantados pela escrita de Auster – nem todos serão respondidos, no entanto, é impossível negar a curiosidade que eles suscitam.

O segundo motivo de encantamento é mais técnico. Auster usa com maestria a técnica das Bonecas Russas, encaixando uma história dentro da outra, dentro da outra. Temos a história “grande” de Syd Orr, escritor acidentado, e Gracie, sua esposa. Logo começa uma outra história (“média”), a que Orr está escrevendo: esta é a história de Nick Bowen, um editor de livros que decide largar o emprego. E dentro dessa história, uma terceira (“pequena”), a história da Noite de Oraculo, livro escrito pela autora Sylvia Maxwell, autora fictícia inventada por Orr. Várias outras narrativas curtas permeiam este livro… A relação de M.R. Chang com Orr, a história de Jacob. A profusão de histórias é tão grande que o livro causa um estranhamento por lembrar, talvez demais, a vida real: cheia de pedaços desconexos de narrativas de vidas distintas, das quais tentamos tirar algum sentido. E que, no entanto, na maior parte das vezes não têm sentido algum. São apenas coisas que acontecem e passam.

Ainda com relação ao aspecto técnico, o uso extensivo das notas de rodapé me provocou um estranhamento. Não sei se gostei, mas definitivamente produz um efeito diferente na leitura. Talvez seja um recurso importante para tratar dessas micro-histórias que se infiltram constantemente na história principal, além de serem uma forma de demarcar a fala do personagem Orr ao descrever a história secundária, de Nick Bowen. As notas são, ao menos, uma ferramenta para nos lembrar de que tudo o que está escrito é ficção, que tudo não passa de histórias dentro de histórias dentro de histórias.

Em suma, esse livro foi uma agradável surpresa.

Paul Auster: Nascido em 1947 em Newark, Nova Jersey, Estados Unidos, estudou literatura francesa, inglesa e italiana na Columbia University, em Nova York. Viveu em Paris de 1971 a 1975. De volta a Nova York, em 1980 mudou-se para o bairro do Brooklyn, onde vive e trabalha até hoje. Poeta, tradutor, crítico de cinema e literatura, romancista e roteirista de cinema, publicou ensaios, memórias, poesia e ficção. (biografia disponível no site da Companhia das Letras, selo que publica este autor)

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