Vertigo

Um texto escrito para e no encontro do Clube de Leitura e Escrita.

img_2972-2Quatro grandes pedras encimadas umas nas outras. No meio, uma pequena passagem que leva para o alto. Uma escada de madeira. O cume. Aqui o sol já está forte apesar de ainda não ser oito da manhã. Aqui, apenas essas pedras inclinadas servindo de chão, esse chão pouco confiável em que devo me fincar. Olho para baixo paralisada. Venta, e eu, frágil. Qualquer sopro mais forte e me desequilibro e escorrego, e… Sento em uma das pedras e vou me arrastando. Paro em um ponto um pouco mais distante. Pela primeira vez desgrudo os olhos do chão e vejo o entono. 360° de de céu, nenhuma montanha acima de mim, ou mesmo bloqueando o horizonte. Todas as outras parecem anãs. Nenhuma nuvem. O cume.

O cume é superestimado. A subida inteira sem fôlego, a dor no lado do abdome, as coxas queimando, os dedos apertados na bota, para chegar aqui. O caminho tortuoso, o caminho sem sinalização, o caminho de escadas e ladeiras íngremes e mais escadas. Volta e meia um mirante fornecendo a ilusão de que ah, acabou! Para logo então descobrir que não, que ainda falta. O percurso inteiro sem saber quanto do caminho já se foi, quanto mais é preciso percorrer, por quanto tempo mais segurar o passo e a dor e a falta de ar. E aí, finalmente, ah, o cume! Lá embaixo as pessoas que já nem enxergo se movem livremente enquanto eu, sentada no cume.

Enquanto subia, meus pensamentos se limitavam ao mínimo necessário “anda, cuidado, olha aqui. Sobe o degrau”. Agora, sentada, a mente passeia. Lembro do tio O, nome kafkiano mas real. “Despencou”, falaram, “tão experiente e despencou subindo a montanha”. A montanha de tio O., eu também subi, quando tia uns 12 anos. E durante todo o trajeto não pude deixar de pensar; quando me segurava nos frágeis porta-corpos de metal, quando cheguei no cume, quando desci ilesa. E depois eu esqueci, soterrei esse pensamento que agora me retorna, nesse cume consideravelmente mais alto e mais distante de casa.

Tento reunir a força e o equilíbrio para me levantar, mas horizonte pesa. Sentada, fico pensando, mas pensar não diminui a vertigem. Pensar pior. Vertigo, o filme de Hitchcock traduzido como O corpo que cai. A montanha dos 12 anos, o tio O. o cume. Alguns outros turistas chegam. Sinto-me um estorvo no meio do caminho de suas botas aderentes, de seus passos leves que não têm vertigem, que não pensam em tio O, que não pensam no corpo que cai, nos corpos que caem.

Vou ficar aqui para sempre. Se eu não levantar agora, vou ficar aqui para sempre. Os guardas da reserva terão que subir com cordas e me arrastar montanha a baixo. Quem sabe possuem helicópteros de resgate? Improvável, mal tem sinalização no caminho. Quando eu era criança, recordo, adorava quando meu pai colocava a escada de corda na lateral da nossa casa para subirmos no sótão. Eu subia, sob as recomendações de constantes de cuidado e olhar vigilante da minha mãe. A escada se mexia o tempo todo, e a sensação fazia o meu corpo todo tremer de alegria, excitação, encantamento. Sonhava um dia poder pular da portinha do sótão e sair voando. Em algum momento, inclusive, cheguei a me convencer de que tinha poderes sobrenaturais. Felizmente, para testá-los pulei apenas da escada do colégio e não sofri nada além de um leve arranhão.

Preciso levantar antes que pense mais, antes que imagine o corpo, a queda descontrolada pelas pedras. Levanto o sigo os turistas que já estão indo embora – eles, sem qualquer sinal de vertigem. Tento não pensar, não olhar as pedras inclinadas, inseguras em que preciso me fiar. Concentrada, chego à lateral de uma das pedras-chão. Ali, uma pequena escada entalhada. È preciso descer de lado pois os pés mal cabem nos degraus. A escolha a ser feita é encarar o abismo ou a parede de rocha na descida. O abismo na frente ou o abismo espreitando por detrás dos ombros. Desço com o rosto quase colado à pedra úmida, que o sol ainda não teve tempo de aquecer. Minhas mãos deslizam pela sua superfície sem jamais quebrar o contato.

Formamos uma fila de lentos turistas. E se alguém acima de mim tropeçar? Rolaremos todos, como um dominó? E se for eu a cometer o deslize? Levarei comigo o casal em lua de mel? A família aventureira? Ando ainda mais devagar. Cada imagespasso exige toda a concentração e me dou conta de que cada músculo demanda uma enorme força para ser movido. Logo me torno a primeira da fila de turistas que descem a escada-penhasco. Sou aquela que todos querem ultrapassar, mas não podem – a escada é estreita demais. Toda a concentração está nos músculos das pernas e nas pontas dos dedos. Mal me dou conta do que se passa às minhas costas, e é por isso que não percebo algo que se desaloja de minha mochila. O barulho me assusta quando a garrafa de água cai no chão e começa a rolar pelos degraus. Ela é rápida, muito mais rápida que eu. Pela primeira vez olho para o pé da escada, a tempo de ver a garrafa atingir o chão, ainda rolando, e se precipitar para o abismo que nos circunda.

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