O Filho Eterno

“A primeira criança de um casamento é uma aporrinhação monumental – o intruso exige espaço e atenção, chora demais, não tem horários nem limites, praticamente nenhuma linguagem comum, não controla nada em seu corpo, que vive a borbulhar por contra própria, depende de uma quantidade enorme de objetos (do berço à mamadeira, do funil de plástico às fraldas, milhares delas) até então desconhecidos pelos pais, drena as economias, o tempo, a paciência, a tolerância, sofre males inexplicáveis e intraduzíveis, instaura em torno de si o terror da fragilidade e da ignorância, e afasta, quase que aos pontapés, o pai da mãe.”

Seis anos atrás, isto é, em 2011, eu passava as minhas tardes das quartas feiras em uma salinha aconchegante e com ar condicionado, sentada em uma poltrona. A sala de espera da análise era um momento de leitura tranquila em meio ao caos do Rio de Janeiro, mas, por vezes, esquecia de levar algum livro. Nesses casos, apelava para as poucas leituras disponíveis na própria sala: um livrinho de cartuns do Quino, lido milhões de vezes – pelas minhas mãos e por outras tantas – e as ocasionais revistas.

Foi numa dessas tardes que, adiantada, comecei a ler a seção dedicad41t-6odfdwl-_ux250_a a livros e escritores. Não lembro o nome da revista, mas foi por lá que me deparei com o nome de Cristóvão Tezza e do Filho Eterno. Ih, legal, um autor brasileiro contemporâneo, com livros muito premiados e que eu nunca li. Assim que saí na análise fui na livraria e comprei, ao acaso um dos livros do autor. Um Erro Emocional, que era o mais barato. Fiquei encantada com a escrita de Tezza e, como é um hábito meu, mergulhei na leitura de seus livros. Beatriz, Trapo, e O Espírito da Prosa foram alguns dos livros que li.

imagesPosso dizer que terminei 2016 e comecei 2017 com uma paulada literária, pois só agora li O filho eterno.  Este livro, que remete à experiência pessoal de Tezza, retrata com dureza a experiência de descobrir-se pai de uma criança com síndrome de Down. Os sentimentos e pensamentos desse pai são descritos com uma sinceridade quase brutal. No entanto, não se trata simplesmente de um diário. Nas palavras do autor:

“O filho eterno é um livro brutalmente autobiográfico — tudo nele partiu da memória. Mas é uma memória relativizada pela ficção, transformada pela linguagem romanesca. Isso me deu uma grande liberdade narrativa, em que a realidade se tornou não o limite, mas o ponto de partida para a reflexão. E o livro me permitiu pegar mais de 30 anos da minha vida e dar algum sentido a eles”.*

Com uma pegada realista, o protagonista do livro não encontra de súbito um sentido na síndrome que acomete seu primogênito. O pai, um literato, aspirante à escritor luta, ao longo dos 26 anos de vida do filho, com a vergonha, a irritação e, talvez mais ainda com a decepção de ter um filho que é incapaz de compartilhar com ele do mundo das palavras. A trissomia do cromossomo 23 é a fonte dos conflitos do pai, e estes permanecem ao longo do livro, sem uma resolução mágica. No entanto, o tom do livro cambia de um desespero quase total, para algo que se aproxima cada vez mais de uma aceitação pela via do afeto.

Apesar de ser um livro com um forte componente autobiográfico, Tezza narra uma experiência compartilhada por muitas mães e pais (de crianças com ou sem deficiências/especiais): perceber-se repentinamente preso às necessidades de um outro ser; ver-se com suas possibilidades de escolhas subitamente restritas; encontrar-se em um caminho do qual não se pode retornar pelo mero desejo. Mais do que apenas o relato de um caso específico, o livro trata do sentimento compartilhado por muitos de sentir-se incapaz de lidar com a maternidade ou paternidade, que parece pesada demais, permanente demais, irrevogável.

Cristovão Tezza nasceu em Lages, Santa Catarina, em 1952, mas mudou-se para Curitiba ainda quando criança. É considerado um dos mais importantes autores da literatura brasileira contemporânea. É autor, entre outros, de Trapo, O fantasma da infância, Aventuras provisórias, Breve espaço entre cor e sombra (Prêmio Machado de Assis/Biblioteca Nacional de melhor romance de 1998) e O fotógrafo (prêmios da Academia Brasileira de Letras e Bravo! de melhor romance do ano). A publicação do inédito O filho eterno marca seu retorno à Record. O livro venceu os mais importantes prêmios literários do país: primeiro lugar no Prêmio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa, como melhor livro do ano, venceu o Prêmio Bravo! Prime de Cultura, na mesma categoria. Foi escolhido também melhor romance pela Associação Paulista dos Críticos de Arte (Apca) e ganhou o Jabuti de melhor romance. Além do Prêmio São Paulo de Literatura.
www.cristovaotezza.com.br

*Entrevista disponível em: http://www.record.com.br/autor_entrevista.asp?id_autor=928&id_entrevista=113

 

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