a máquina de fazer espanhóis – valter hugo mãe

“o lar da feliz idade, assim se chama o matadouro para onde fui metido.”

maqvalter hugo mãe nasceu em Angola, mas vive em Portugal desde muito os dois anos de idade e é nesse país que se desenrola seu livro, mas especificamente, num asilo para idosos, o feliz idade.

A história se inicia com a entrada de antónio jorge da silva no lar e com a perda de sua esposa, laura. Revoltado com o ocorrido e igualmente com a mudança de residência, silva se isolada de todos e se recusa a falar. Aos 84 anos de vida e sem aquela com quem compartilhou os últimos 48 anos, parece à silva que a vida lhe pregou uma peça de mal gosto e que não há mais motivos para continuar.

Distante de sua família, sem a companhia de laura, silva se resigna e inicia o contato com aqueles que lhe cercam. O jovem américo, que ali trabalha, o doutor bernardo e os outros residentes:  pereira, o silva da europa e mesmo o esteves sem metafísica. Este último sendo a lenda viva do feliz idade, com seus quase cem anos, seria aquele mesmo, mencionado por Fernando Pessoa na Tabacaria.

O protagonista entrelaça a narrativa do presente com suas memórias, particularmente as do tempo da ditadura de Salazar em Portugal. Tais lembranças se fazem vivas, ainda mais por vivermos um país em que a sombra da ditadura continua presente e intensa.

“o salazar foi como uma visita que recebemos em casa de bom grado, que começou por nos ajudar, mas que depois não quis mais ir-se embora e que nos fez sentir visita sua, até que nos tirou das mãos tudo quanto pôde e nos apreciou amaciados pela exaustão”

img_3799É preciso comentar o formato do livro: o texto não é formatado, mas alinhado à esquerda, e totalmente escrito em minúsculas, o que causa um primeiro momento de horror para pessoas que – como eu – já se viciaram nas normas ABNT. No entanto, passado o primeiro momento de estranhamento, o texto flui perfeitamente.

Estou aproveitando esse momento de semi-férias para ler tanto quanto possível. E felizmente tenho escolhido bons livros, que há muito estavam na minha estante. Esse livro, em específico, me agradou por alguns motivos. O primeiro é um tanto bobo: ler um texto em português de Portugal me traz boas memórias e me faz pensar em parte com aquele sotaque gostoso e chiado da ribeira do Porto.

Mas para além disso, é um texto muito intenso e, mesmo, pesado. A morte e a decadência rondam os pensamentos de silva a todo momento. Como ele mesmo afirma, a morte nos circula, vem por todos os lados. No Feliz Idade, é preciso reconhecer essa proximidade da morte. É preciso reconhecer o corpo como essa máquina que falha e cuja falta procuramos suprir como tubos e seringas e todo o tipo de tecnologias. O corpo é essa máquina que, à qualquer momento, se engasga e para de funcionar de todo. No Feliz Idade, silva é forçado a lidar com a complexidade da vida e da morte, com a alegria da amizade madura e com a brevidade de todas as coisas.

Assim como silva é forçado a pensar sobre esses assuntos, nós, leitores, também o somos. Genial. Foi o primeiro romance do autor que li, mas depois dessa experiência, pretendo partir para outros de seus livros.

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