O Diário

diario-de-bordo102/12/2000

Hoje pela manhã, ao entrar no refeitório, eu o vi se afastando do piano de armário. Bom dia, bom dia, um selinho e nos afastamos. Pus na longa mesa as comidas frescas do dia, o pão, a manteiga, a geleia, o suco, a água, o leite quente e o café preto. Os pratos empilhados, os copos e xícaras. Tudo pronto.

Os hóspedes foram entrando, as caras com diversos graus de sonolência. Eu, alerta e Mauro já no escritório. Hoje repus as comidas e bebidas sem parar. O movimento está cada vez melhor, ainda que nesse trecho da estrada não passem tantos carros assim. Mauro disse que teremos lucro este mês, finalmente. Quase um ano pagando para ficarmos abertos, e agora lucro. Falou em termos rebuscados, mas a ideia era essa.

Um ano atrás ele me contou que tinha comprado esse elefante branco de beira de estrada. Íamos reformar e abrir. Investimento certo. Compramos os poucos móveis idênticos que estão em todos os quartos. As camas de casal, as mesinhas de cabeceira e o pequeno armário, todos em M.D.F. imitando madeira.  Para gastar menos, fizemos grande parte das reformas sozinhos. Trocamos as tomadas, instalamos piso laminado, pintamos tudo. E fizemos os furos de ventilação. Daqueles, quadrados, pequenos, que dão para o sótão. Para instalar um ar central, quando tivermos dinheiro, disse o Mauro. Se tivermos dinheiro.

Os quadrados no teto e Mauro, nesse ano, cada vez mais fechado em seu escritório, escrevendo um livro que nunca posso ler. Só quando estiver pronto.  Mauro, cada vez mais sumido, consertando pias que pingam ou comprando mercadorias que acabam misteriosamente.

Quando o horário do café se encerrou, retirei toda a louça e os restos de comida. Recolhi as toalhas de pano. Limpei o piso do salão. Mauro no escritório até a hora do almoço – finanças, como sempre. Fechei as portas do salão e corri ao piano. Com as mãos sobre a madeira velha, hesitei. Abri a parte superior e tateei seu interior oco. Fundo de mais. Subi no banco e olhei para dentro: lá estava o “livro”. Na verdade, apenas um caderno gasto, preto… Mas que anticlímax… não só por constatar que ele era absolutamente simples e sem graça. Mas porque simplesmente fui tomada da certeza de saber o que ele continha. O caderno-livro que eu vinha caçando pelo último ano em todos os colchões, quartos e banheiros do hotel estava na minha frente e agora era só uma questão de abrir e ler.

06 Dezembro de 1999

 Recebemos ontem os primeiros hóspedes. Terminamos todos os reparos bem a tempo. No momento, temos apenas um quarto ocupado.

Após a janta, digo à Célia que Vou trabalhar até tarde, pode deitar, eu já vou. Pelo alçapão no teto do escritório, entro no sótão de duas águas e me esgueiro até o buraco de ventilação do quarto 245. A posição não é agradável. Pelo contrário, apoiado em um dos ombros, as costas doem. Deitado de barriga para baixo, aspiro enormes quantidades de pó, e sinto a lombar cada vez mais rígida. Procuro variar entre as posições fazendo o mínimo de barulho possível.

Abaixo de mim, o velho, enrugado, nu, deita na cama apoiado contra sua cabeceira. Ele massageia seu pênis mole, enquanto as jovens – nuas, lisas e firmes – na televisão se acariciam e lambem. Ele se masturba e chora e o pênis se recusa a ficar rígido. O homem insiste por 15 minutos, chorando cada vez mais. Seu corpo todo balança e ele acaba desistindo. Desliga a televisão. A mão que massageia o pênis se fecha. E o homem começa a puxá-lo com força para cima e para baixo e então suas unhas se cravam no pênis mole. Ele sangra. E então o homem começa a se arranhar freneticamente. A barriga, as coxas, os ombros e até o rosto, todos ficam marcados por lanhos vermelhos e posso ver que alguns deles estão ralados. Ele tem a pele sensível de um velhote. Provavelmente, seus machucados vão demorar a cicatrizar. Ele sangra e chora cada vez mais. Ele rola sangrando e chorando pelo colchão até cair da cama. Fica deitado no chão até pegar no sono.

 

08 Março de 2000

Estamos quase lotados.

Noite passada fiquei observando longamente as duas irmãs que estão no quarto 125. Morenas, as duas, com cabelos de índia. Elas tomaram banho juntas, saíram do banheiro enroladas em toalhas e sentaram-se lado a lado na cama, onde ficaram se penteando. Por meia hora, talvez, elas ficaram nessa posição. Sem falar nada, sem olhar para nada, apenas penteando os cabelos lisos. Observei como em um transe enquanto elas realizavam seu estranho ritual. O silêncio emprestava às irmãs uma aura mística e, por um momento, sonhei que estava vendo duas criaturas que não pertenciam a esse mundo.

 

25 de Junho de 2000

O movimento de hóspedes tem oscilado. Há dias em que ninguém novo chega, e então, no dia seguinte, nos vemos com os quartos lotados. Ontem recebemos um jovem casal. A caminho da lua de mel, provavelmente. A mulher berrava Olha essa bosta, olha essa água gelada, como vou tomar banho? Como vou tirar essa merda de laquê? E ele respondendo Você só se preocupou com as flores e buquê e vestido e a merda da festa e eu tenho que fazer mágica?. Ele saiu do quarto para Esfriar a cabeça enquanto você se vira e toma a porra do banho.

A mulher pegou o celular chorando de raiva, o queixo tremendo. Alô. Diogo? Tô com saudade. Que caralho, por que eu fui casar com ele? Nem chegamos na lua de mel e já não suporto, não suporto mais. Sim, quando eu voltar a gente se vê. É, no mesmo lugar, mesmo esquema de sempre. Também te amo.

E já não chorava mais.

 

02 de Outubro de 2000

Um jovem e uma mulher de meia idade estão aqui há três dias. Ele é franzino e loiro. Ela é comprida, magra, grisalha, um pouco amarelada. Todas as noites ele a despe inteiramente e observa seu corpo nu com atenção, como se procurasse manchas na sua pele ou o sinal de alguma doença. Ela fica deitada de barriga para cima com os olhos fechados. Por vezes acho que ela dormiu, mas então reparo que ela abre os olhos rapidamente e torna a fechá-los. Ele observa cada parte do seu corpo, começando pelo rosto. Nota cada uma de suas rugas, a pele, que parece se descolar dos ossos, que é empurrada pela gravidade e se acumula junto às orelhas. Ele se move lentamente pela cama e se torna cada vez mais focado. Seu corpo se contrai e quase consigo ver a energia se acumulando em seu interior. Sua respiração se acelera um pouco e suas mãos passam por cima do corpo da mulher, mas não chegam a tocá-la. Ao chegar nos pés, olha-os longamente, primeiro para a parte de cima e depois para a sola. Então abre a boca, e encosta-a contra os pés e beija-os e lambe-os com fervor.

O caderno-livro de Mauro conta em mínimos detalhes cada uma das 364 noites passadas aqui. Um registro eterno das noites de cada um dos hóspedes. Suas folhas estão sujas de gordura de dedos. Provavelmente foi lido e relido por Mauro, em seus momentos de folga. Conforme folheava as páginas e escolhia um ou outro parágrafo aleatoriamente, percebi que ele riscou algumas de suas palavras e acrescentou novas. Procurava descrever de forma mais fiel o que observou ou, talvez, tornar a leitura mais prazerosa. A letra de Mauro é feia, mas totalmente legível. Guardei o caderno onde o encontrei. Amanhã posso continuar a leitura.

Abri as portas do refeitório e fui para a recepção, aguardar os novos hóspedes.

* Conto inspirado pelo Clube de Leitura e Escrita, que este mês teve como mote um trecho do livro Voyeur, de Gay Talese

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