A guerra não tem rosto de mulher -Svetlana Aleksiévitch

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A história da Segunda Guerra que Svetlana Aleksiévitch conta é o avesso dos livros. É a guerra do dia a dia. Ao invés das grandes batalhas, dos feitos heroicos e das estatísticas, a autora, premiada com um Nobel de literatura, percorre o caminho das formigas e dos humanos: colado ao chão, às memórias singulares das mulheres que compuseram o front do exército vermelho. O percurso é tortuoso e lento. Ao seu final, não temos uma história linear, mas suas muitas versões: nas palavras da enfermeira, da médica, da tanquista, da francoatiradora, da piloto, da partisan.d9d8edc1730d82adb1e0a657979c4e97

As histórias não são meros relatos burocráticos da guerra, mas cenas, fragmentos marcados por décadas nas mentes daqueles que os viveram. Os relatos, diz Svetlana, tomaram dimensões muito maiores do que ela esperava. Uma vez rompido o silêncio, todas queriam, precisavam contar a história da sua guerra. A história incontável. A que precisa ser contada.

“Depois, mais de uma vez me deparei com essas duas verdades convivendo em uma mesma pessoa: a verdade pessoal, relegada à clandestinidade, e a verdade geral, impregnada do espírito do tempo. Do cheiro dos jornais. A primeira raramente consegue ficar de pé diante da pressão da segunda. “

Percorrendo esse caminho, tomando chá e comendo tortas e falando sobre a guerra, Svetlana recolheu o material que compõe este livro. Apesar de seus esforços, parte do livro foi censurada: era preciso falar da Vitória. “Depois de livros como esse, quem vai lutar na guerra? Você está humilhando a mulher com seu naturalismo primitivo. A mulher heroína. Destronando-a. está transformando-a em uma mulher comum. Uma fêmea.”. Era preciso falar da força das mulheres da guerra. E não sobre a morte, e não sobre a falta de sentido da guerra.  “Sim, a Vitória foi dura para nós, mas você deve procurar exemplos heroicos. Há centenas. No entanto, você nos mostra a sujeira da guerra. A roupa intima.”

Assim como nas pesquisas científicas, era preciso esconder a roupa suja. Era preciso criar uma linha coerente, uma unidade que emprestasse sentido e finalidade à guerra: a Vitória. Mas, nos relatos, só encontramos o caos. Em meio aos bombardeiros, à fumaça e dor, resta apenas confusão entre quem é fascista e quem não é. Entre seres humanos e animais.

“Lembro de um caso… Chegamos a uma vilazinha, e junto da floresta tinha alguns  partisans mortos. Como tinham sido humilhados, não consigo nem reproduzir, meu coração não aguenta. Foram cortados em pedacinhos…. Destripados, como porcos… Estavam ali… Não muito longe, cavalos pastavam… Via-se que eram os cavalos dos partisans, estavam até selados (…). E eu também pensei: como fizeram isso na frente dos cavalos? Diante de animais.”

No início da guerra: “Ninguém vai atirar sem ódio. É uma guerra, não uma caçada. (…) [levei a] notificação de morte do meu pai na bolsa durante toda a guerra… Atirar! Atirar! Precisava me vingar…” .  A raiva, o ódio, o medo. E a vingança.. Perto de seu fim, no entanto, o asco de ter que matar mais e ainda… “Eu, que tinha jurado que iria odiar todos eles.. Juntava com os nossos soldados tudo o que eles tinham, o que tinha sobrado da ração, qualquer pedacinho de açúcar, e entregava para as crianças alemãs.”

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Depois da guerra, a vergonha de ter participado dela. Esconder-se e calar, ou sofrer com as palavras dos outros, seus julgamentos. Lugar de mulher não é na guerra. Mesmo numa guerra em que se vença. Mesmo com condecorações. “Depois da guerra… Eu morava em uma kommunalka. Todas as minhas companheiras de apartamento tinham marido, me ofendiam. Humilhavam: ‘Há-há-a… Conte como você f… com os homens lá’. Jogavam vinagre na minha panela de batata. Botavam um colher de sal… Há-há-a.”. E depois, o esquecimento dos outros. A guerra é dos homens, é dos homens que a contam.

Um livro sobre sofrimento, sobre humanidade, sobre violência e amor, mas também um livro sobre o pesquisar. Qualquer tentativa de resenha parece fraca demais, simples demais perto do livro. Ainda assim, precisava tentar. “Depois da guerra… A vida humana não valia nada. Vou dar um exemplo… Depois do trabalho estava no ônibus, quando de repente comecei a ouvir gritos: ‘Pega ladrão! Pega ladrão! Minha bolsa…’ O ônibus parou… Na mesma hora se juntou um furdunço. Um jovem oficial levou o menino para a rua, colocou o braço dele sobre o seu joelho e – pou! – quebrou em dois. Subiu de volta… E demos partida…”

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SVETLANA ALEKSIÉVITCH – Nasceu na Ucrânia, em 1948. Jornalista e escritora, refinou ao longo de sua obra uma escrita única, desenvolvida a partir de observação da realidade e ostentando as melhores qualidades narrativas da tradição da literatura em língua russa. Em 2015, recebeu o prêmio Nobel de literatura (texto informado pela Companhia das Letras).

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