Churrasco

Sentiu a barriga torcer de fome, fazia tempo que não sentia tanta fome assim, nem se lembrava quando… também não recordava quando ou o que havia comido da última vez. Nesses momentos de fome intensa, as coisas ficavam nebulosas e sua mente oscilava, entrando e saindo de um estado de torpor. Uma nuvem se baixava sobre a realidade: pensar era difícil, andar era difícil… perceber os limites de seu próprio corpo era difícil. Tinha medo de, em um desses momentos, se acidentar, cair no chão, quebrar algum osso e sequer se dar conta. A fome era maior que tudo. De repente, a nuvem subia e ele sentia dores excruciantes nos pés, nas costas. Sentia o estômago vazio e ao mesmo tempo parecia estar prestes a vomitar. E então a nuvem tornava a cair e ele continuava andando semi-adormecido.

Estava, nesse momento, atravessando alguma rua, sem ver por onde ia. Tinha a vaga noção de que havia muitos ônibus de um lado e muitas pessoas do outro. Luzes piscavam à sua direita como pequenas estrelas esbranquiçadas. Sentiu um cheiro intenso que o puxava aos poucos de seu estado sonambúlico. O cheiro pungente, picante, se impregnava em suas roupas, seu cabelo, sua pele. Estava à sua volta, tomando-o completamente. Sentiu a boca, antes seca, se encher de saliva. O cheiro invadia as narinas, fazia o estômago acordar do sonho da fome frente o prenúncio da comida deliciosa. Fumaça, pensou, agora acordando mais. Churrasco. Podia reconhecer o cheiro delicioso da carne sendo tostada, defumada, o sangue ainda escorrendo. De alguma memória distante, que ele sequer sabia possuir, sentiu o sabor da carne macia rodando em sua língua, sua boca. Carne: a comida da sustância, a comida dos ricos. E ele, ainda, sentindo a fome. Seus pés o guiavam em direção ao cheiro, em direção à deliciosa carne que queimava na brasa, vermelha, suculenta. O movimento à sua volta parecia mais intenso. Talvez ainda fosse a fome, mas tinha impressão de ouvir uma gritaria indistinta de vozes. Parecia estar andando em um nevoeiro. Se não comesse em breve, talvez morresse. Vai ver a morte era assim, entrar numa nuvem saborosa de churrasco.

Percebeu, no entanto, que sua pele parecia bem acordada. Suava, sentia muito calor. Suas mãos pareciam queimar. Parou e olhou à volta. A nuvem parecia ainda mais densa, negra. Respirar era mais difícil. Morrer de fome era isso? Sentiu braços à sua volta, puxando-o pelo caminho pelo qual havia chegado até ali. Tentou lutar contra as mãos, mas não tinha forças. Foi arrastado para longe do churrasco delicioso e apagou – morreu? – numa nuvem sem cheiros e indolor.

Incêndio atinge barracos na noite de terça feira e deixa 3 mortos e 42 feridos. Doze equipes de bombeiros foram enviadas à região. Página 7

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* Conto inspirado pelo Clube de Leitura e Escrita, que esta semana teve como mote um trecho do livro Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa

 

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