Segredos e Máscaras

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Conta os seus segredos, eu peço. Estamos sentados no chão da calçada, é inverno e sinto o frio subindo pelo meu corpo. Você toma um gole disso que chamamos vinho, embora pareça um suco de uva – e um suco bem ruim. Conta um só, um segredo. Você diz que segredo, você é doida mesmo. Eu quero conhecer o que tem por detrás dos seus gestos, tento dizer, e tenho certeza de que vou gostar do que tem por detrás, não importa o que seja. Conta um segredinho só. O seu rosto me parece uma máscara de couro enquanto você ri. Ela se repuxa pelos cantos, depois cai inerte como se a estrutura que a suporta tivesse se rompido. Um só. Preciso insistir, ir além, abaixo do couro. Conta, por favor. Outro gole do suco de vinho. O gosto é ruim. Por debaixo e através da máscara-couro consigo ver seus músculos se espremendo. Seus músculos vermelhos e cheios de sangue, que são capazes de se contrair e de se distender. Hein? Quero mais. Quero o segredo por debaixo do couro, debaixo dos músculos. Para com isso, conta você, então. Não quero contar. Quero continuar e ver para além dos músculos: os seus ossos e pelas lacunas dos ossos, o seu avesso que se anuncia. Um só. Eu não conto pra ninguém.

E então percebo, embaraçada… debaixo do couro, dos músculos, dos ossos só tem o avesso de você e depois o nada.

* Texto escrito para o Clube de Leitura e Escrita que, nessa semana, teve como inspiração um trecho de Restos de Carnaval, de Clarice Lispector.

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