Oito Folhas

vobertha2 1

Quando ela era jovem, lá pelos anos 1930, um tal fulano cismou com a minha avó, apesar de ela ser de família alemã e ele odiar alemães. Ele era militar, baixa patente, talvez ainda cabo nessa época. Ela odiava milico – palavras dela. A vó já tinha namorado um alemão, um espanhol. Mas milico não. Era preciso colocar limites.

Ele queria conhecê-la. Sempre esperava por ela na praça do bairro em que moravam. Até o imagino encostado em um carro, fumando um cigarro de palha no canto da boca e esperando a vó passar. Ela passa, ele arrisca um bom dia e ela aperta o passo, parece nem ter mais boca de tanto que cerra os lábios já finos. Ele pede para os amigos convencerem a alemãzinha a falar com ele. Eles tentam, tentam. Milico não.

Então ele escreve uma​ carta. Oito folhas. Oito folhas de carta! Minha vó nasceu em 1912, as pessoas escreviam cartas, mas oito folhas parece exagero mesmo para a época.

Eu cresci ouvindo essa história. Ô vó, conta aí da mocidade. Ela ria e contava dos bailes num clube, da roupa que lavava pra fora, de como descosturava e recosturava do lado contrário as golas das camisas do meu pai e dos meus tios. E contava das cartas. Acabou-se o que era doce, dizia a vó, o rosto entre o riso e a tristeza. Acabou-se tudo.

Por muito tempo eu pensava sobre a beleza de tudo aquilo, aquelas oito folhas de romance. História que daria um belo musical.

Depois comecei a ficar curiosa. Como o milico encheu tantas páginas destinadas a uma completa desconhecida? Ele teria tido que elogiar todas as formas que ela usou o cabelo, e as roupas que vestia. A forma como carregava as coisas, como apertava o passo. Oito folhas!

Por mais que tenha escutado essa história milhões de vezes ainda me surpreendo pensando nisso, nessas oito folhas. Eu, que hoje em dia, mal tenho paciência de escrever um cartão postal ou de aniversário, boas festas, parabéns pelo casamento, como imaginar o conteúdo das tais folhas?

Mas era o que a vó dizia. Que isso, vó, mas o que é que ele escreveu? Ela ria, mas não contava. Ô vó, e aí, que que você fez? Ela ria mas não falava. Por vezes sonhei em encontrar as tais cartas em alguma gaveta, fundo do armário, fresta do piso. Nada.

Fato é que eles tiveram três filhos, seis netos e seis bisnetos, mas a carta ficou para sempre perdida. A existência de todos eles – nós – selada naquelas oito folhas. E se elas não tivessem chegado nas mãos da vó? E se ela tivesse perdido a carta? E se na época as cartas​ fossem tão econômicas quanto as nossas mensagens atuais, crípticas, breves? E se ela tivesse rasgado sem ler, e se tivesse, e se tivesse… Nós apenas não seríamos. A vó não sentiria a falta de nós, o mundo não saberia que não chegamos a ser, nós mesmos não poderíamos nos entristecer, a inexistência da carta sendo a nossa própria inexistência.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s