Rapunzel

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Na época, a avó ainda não era avó – nem mesmo mãe ou esposa – mas ainda uma menina verde de 18 anos. O avô tinha os seus 17 anos e eles ainda não eram casados. Conversavam em um banco na praça, os dois jovens. Ela tinha os cabelos pretos de índia presos em duas grossas tranças. O calor úmido de pais tropical grudava os cabelos no pescoço, pinicava. A avó afastou as tranças do pescoço e sentiu uma brisa, um alivio. Riu e disse Acho que vou cortar. Riu porque a ideia lhe ocorrera no momento e era apenas uma brincadeira. Vou cortar. O avô ficou sério Seus cabelos são lindos, você não pode cortar. Ela perguntou Por quê? Bem que seria mais prático, ter os cabelos curtos, e mais fresco também. Mas os seus cabelos, são lindos, tocou uma das tranças de leve. Os cabelos são o que há de mais feminino, sem os cabelos vai parecer um homem. Mas qual o problema? Riu e puxou as tranças pra trás, fingindo que ela já as havia cortado. Se você cortar eu juro, juro, que nunca mais falo com você. Se você cortar, está tudo acabado. Ela riu. Os dois se despediram, se encontrariam dali a dois dias, ou talvez três. O namoro da época, com datas pré-definidas.

Dois dias depois, ou talvez três, tornaram a se reencontrar. Os olhos do avô se arregalaram O que você fez? Você cortou? Cortei sim, ela disse, E aí, nunca mais? E aí, está tudo acabado?

Casaram, fizeram bodas de 50 anos, e ela nunca mais, nunca mais teve as tranças de Rapunzel.

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