Perdida

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Ô, menina, para de falar? Por favor, eu quero dormir… eu não consigo com essa, com essa, com essa… essa faladeira toda…

– Então, ontem nós fomos passear no jardim botânico um pouco. Comemorar o aniversário do Paulo. Você lembra do Paulo?

Paulo? Que Paulo? O Paulo, filho da, daquela… aquela moça… a… Teresa. Ele morreu já faz tempo. O que você tá aí falando dele? Falando, falando, falando… um monte de coisa sem sentido. Que o Paulo foi.. foi onde mesmo que você disse? Ai, quer saber… fica quieta mulher… Me deixa.

 – O que foi que você disse? Eu não estou te entendendo bem hoje, você está falando muito rápido… Você quer que eu abra um pouco as cortinas?

Ótimo, agora ainda faz essa claridade toda entrar aqui… Era só o que faltava… eu, querendo dormir e você que não me deixa em paz.

– Eu sei que a luz te incomoda, mas é bom para você. Um pouco de vitamina D. O dr. Teixeira já falou, você sabe bem.

Tudo bem, deixa então essa porcaria de cortina aberta… se o Dr. Silveira mandou… Mas onde será que está a Carla? Pedi pra ela comprar pão há meia hora e ainda não voltou. Eu falei pra ela: Carlinha, vai ali no mercado e compra uma dúzia de laranja, mas até agora, nada…

– Por que você está lacrimejando? Não chora não. Está com alguma dor?

Ah, eu sei que ela já deve estar voltando, que não aconteceu nada… mas mãe se preocupa demais mesmo. É preocupação para a vida inteira… Carlinha já deve estar com dez anos… não, quinze… não, quantos anos ela tem mesmo? Bem, não importa… eu queria tentar cochilar antes de ela chegar. Porque daqui a pouco a Carla volta e a gente vai preparar o lanche pras visitas e aí vou ficar ocupada até de noite, não vou mais poder descansar.

– Você quer que eu leia o jornal para você? Deixa eu ver aqui… Onde está a sessão de cultura?

Poxa fora, você não vai ficar quieta?… E a Carla, cadê ela? Ela ainda não voltou com o refrigerante? Ou foi o bolo que ela ia comprar? Ah, não. Foi fazer a unha, foi isso. Por isso ela está demorando.

O telefone toca. Carla atende.

– Oi. Não, ela está muito agitada hoje. Não para de balbuciar, mas eu não entendo nada do que diz. Eu nem sei mais o que fazer. Eu acho que ela está piorando e…  e…. Eu tento conversar com ela, mas acabo falando mais para mim mesma. Parece que ela nem está aqui. Parece que nem é ela, na verdade. Espera, depois eu te ligo.

 Gritos incompreensíveis.

– O que foi, mãe? Você quer uma aguinha?

 Eu quero dormir! E onde está a Carla?!

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