Objetos Invisíveis

a45n9g6fl45t1x85gki5j9vee.jpgPara aqueles de nós que, pelos caminhos da vida, trabalham em local fixo, com ou sem carteira assinada isto é, aqueles de nós cuja sobrevivência não depende de vender serviços e objetos pela cidade existe toda uma camada de existência que nos escapa.

Um dia, conversando com uma aluna, fiquei sabendo que sua mãe, conhecida pelas minipizzas que faz e vende por aqui, tinha um esconderijo secreto em um shopping da cidade. Chegava por lá de manhã, guardava a mercadoria, ficava com uma quantidade apenas suficiente para vender por aí. Depois voltava ao estoque improvisado, pegava mais um pouco e assim sucessivamente. Achei genial, uma solução tipicamente carioca. Inclusive fiquei com inveja e comecei a imaginar onde eu poderia esconder as minhas provas a serem corrigidas para não ter que carregar resmas e resmas de papel de um lado para o outro. Meu olhar se entortou um pouco e comecei a ver a cidade de modo diferente. Procurava me treinar para reconhecer em gretas, cantos e portinholas possiveis esconderijos mágicos e recônditos.

No entanto, a realidade, como de costume, se mostraria ainda mais surpreendente do que a minha parca imaginação…

Como usuária do BRT, comecei a notar uma coisa curiosa. O sujeito saltava de algum dos ônibus e com uma sacola preta ou branca, a cor não importa, realmente nas mãos. Então ele forçava uma das portas de vidro a se abrir contra a sua vontade, escalava a lateral da estação pelo lado de fora. Eu via apenas suas pernas e pés, o tronco todo escondido em algum lugar acima de mim. E então ele descia, mas sem a sacola. Ou então, o sujeito vinha, sem sacolas, subia na lateral da estação e descia com sacola. Quantas sacolas há no telhado da estação? me perguntei, inocente. Como funciona o código de uso dos telhados? Terá cada camelô um local específico? Será que alguém rouba a mercadoria de outra pessoa ou serão unidos e movidos por algum laço empático e moral? Como posso circular pelos – aparentemente mesmos – locais e habitar um mundo tão diferente?

Um dia, presenciei uma briga ao esperar o BRT. Um grupo de jovens e um grupo de adultos batiam boca. Os adultos vociferavam, vocês têm que aprender a ter respeito!, têm que aprender! Os dois grupos pareciam elétricos. Não paravam no lugar, ficavam como que quicando, andando para frente e para trás, da direita pra esquerda, estou preparado, pareciam querer dizer, pode vir. Um dos adultos veio andando, largou a mochila no chão sem olhar em volta para ver se alguém poderia tentar roubar, largou a mochila e veio andando, tirando o casaco, como num filme de adolescente bem clichê. Vinha para cima do grupo de jovens, flexionando as mãos. O segurança do BRT entrou na frente, que isso, bom? que bobeira, amigo, vamo lá, vamo conversar. Os adolescentes se entreolharam. A coisa era séria. E se o cara tem uma arma? Um dos jovens tomou a iniciativa, puxou para o canto o adulto que parecia mais sensato e, talvez, inofensivo e conversou a um canto.

Voltaram os dois. Cada um intercedeu junto ao seu grupo, mas a tensão não se dissipava. Chegou o BRT. Apenas os adultos embarcaram, mas olharam para trás como quem diz vou te quebrar. Os adolescentes ficaram na estação, com medo. E se eles estiverem na próxima estação? Lá é maior, o segurança fica longe, como faz? Um dos adolescentes escalou a lateral da estação. Voltou com um pedaço de pau mãos, guardou na mochila, vamo lá, vamo lá! melhor que nada, né?

E eu fiquei lá, parada, pensando nesse mundo de objetos invisíveis, nessa cidade de tesouros escondidos em shoppings e telhados.

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