Das coisas ausentes

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O engraçado é que antes todo mundo me considerava anormal. Mesmo, não é brincadeira. Não seria um exagero dizer que terminei relacionamentos por causa da forma como vivia. Pouco, muito pouco foi o que restou. A família foi embora, meus irmãos – e olhe que tenho seis –, todos eles pararam de me visitar. Diziam que não lhes fazia bem, que ficavam sufocados, ou qualquer outra coisa. Não sei se era verdade ou se eram apenas desculpas que inventavam. Sei que não os vejo mais há… Nem sei quantos anos. Os meus pais já se foram. Amigos, não tenho. Tenho um ou outro colega, ninguém importante. Esposa? Namorada? Todas disseram que não podiam mais aguentar. Eu, pessoalmente, não acho que fosse tão ruim. Mas como eu disse, falavam que eu era anormal.

As pessoas não acham certo guardar as coisas. Eu gostava de guardar. Minha avó sempre disse que quem guarda, tem. Essa frase ficou marcada na minha cabeça e eu julgava entender o que ela queria dizer. Então eu comecei a guardar. Uma roupa que não me servia mais, uma embalagem de presente que eu poderia reutilizar. Talheres de plástico. Garrafas de vidro, potes de geleia. Tudo poderia ganhar novas utilidades. Fazia sentido guardar de tudo um pouco. Uma embalagem vazia de xampu logo se tornou uma coleção de recipientes vazios. Garrafas pet, que têm tantas possibilidades… Fui juntando, pouco a pouco… Comecei a comprar coisas de brechós. Uma lamparina a óleo, um radio de pilhas da época da segunda guerra. Uma cigarreira com as iniciais F.P.G. Armações de óculos.

Você pode pensar que era tudo uma bagunça, uma mistura só. Mas não era não. Tudo tinha a sua ordem e o seu lugar. E a poeira que foi ficando nas estantes, em volta dos objetos, formando as linhas bem marcadas dos seus formatos, essa poeira é a prova de que tudo tinha um local, de que tudo tinha seu propósito, seu display. Cada objeto tinha espaço suficiente para produzir o fascínio necessário. Posso afirmar que a minha casa não é pequena – nem a minha reserva monetária, que também acumulei, pouco a pouco, em tantos anos. Eu tinha o privilégio de ter o meu próprio museu de coisas. Sabia a origem de cada uma, onde comprei, quanto custou. Era reconfortante.

Até que um dia, não sei, me deu um tilt. Olhei todas aquelas coisas e pensei que elas eram verdadeiramente minhas. Independentemente de eu tê-las ou não, elas eram minhas, entende? Não, você não entende. Mas o fato é que elas estavam ali e eram minhas. Eu podia vender todas e ainda seriam minhas. Foi assim que tudo começou.
No mesmo dia eu separei uma mala de couro marrom. Grande, desgastada nas bordas. Seu fecho era de metal, a alça, de couro mais escuro. Essa mala, eu comprei por 10 reais em um brechó de igreja. Por dentro, toda forrada em tecido cinza, que eu mandei reformar. É minha, essa mala. Antes, não sei a quem pertenceu. Talvez a algum doutor importante, desses que tem casas de campo na serra… Seu passado está perdido.

Saí com a mala, peguei o elevador, meio sem jeito por conta do tamanho e do peso. Cheguei à rua e me vi perguntando o que faria a seguir. Entenda, eu nunca fui um homem do povo. Sempre fui reservado, sempre exerci atividades de comando. E agora estava no meio da rua, com uma mala antiga, todo atrapalhado, sem saber o que fazer. Botei a mala no chão. Olhei em volta. Todo mundo passando de um lado para o outro, ninguém notava a minha presença e nem a da mala. De repente, como que impulsionado por uma força exterior, gritei. Gritei mesmo. Mala! Uma linda mala! Antiguidade, adquirida, reformada e conservada! Mala! Pertenceu ao ilustre Dr. Alencar Lima!
As pessoas olharam para mim. Algumas riram, talvez notando a minha incipiência no papel de vendedor. Outras pareceram incomodadas com os meus berros.

Mas uma parou. Uma moça, de uns vinte anos. Cabelos curtos, um pouco mal cortados. Ela perguntou quanto custava a mala. Quinze reais, mas para a moça, faço por cinco. Ela sorriu e tirou uma nota de cinco de dentro do bolso. Eu ofereci para levar a mala – pesada – até a entrada do seu prédio. No caminho, fui contando a história da mercadoria. O Dr. Alencar Lima viajava com frequência para tratar de seus nobres pacientes – dispersos por todo o Rio de Janeiro. Na mala ele carregava os itens necessários para as pequenas intervenções que poderia precisar realizar: seringas, fármacos comuns, ataduras, mercúrio, um bisturi. Era uma mala importante. Claro que toda a história foi inventada. Eu comprei a mala em um brechó e não sei nada de sua procedência. Nem sei se houve um Dr. Alencar Lima e, muito menos, seu local de atuação profissional. Mas pensar que aquela mala, que já ia subindo o elevador, agora levaria um pouco de mim, em uma historia fictícia, inventada às pressas… Pensar nisso me fez sorrir.

Voltei para a casa e olhei o local em que costumava guardar a mala. Um retângulo sem poeira, de 80 X 60 cm, marcava exatamente a presença daquela coisa, que agora estava acumulando poeira em alguma quitinete em um prédio próximo ao meu. É o que eu sempre tento explicar. Mesmo que essa delimitação poeirenta – tão precisa, tão delicada – se desfaça com novos acúmulos de pó, ainda assim, toda vez que eu olhar para o espaço vazio da mala, a mala vai se tornar um pouco mais viva, um pouco mais minha. As pessoas não entendem isso. Antes diziam que eu era anormal. Agora me chamam de maluco, sem nenhum pudor – até os vizinhos, que teimam em querer saber o que é melhor para mim. O que incomoda a todo mundo é que no dia seguinte, eu voltei pra rua, dessa vez com um abajur. No outro dia, foi a mesinha de cabeceira. No outro, uma cadeira. Depois a poltrona, o armário. Uma peça por dia, os anos de coisas armazenadas foram sendo desmontados. Todos esses objetos, vendidos por notas de dez, cinco ou um, sua presença se tornou cada vez maior. Mais vivos do que quando estavam ocupando seus lugares materialmente. E fiquei assim: colecionador. Mas colecionador das coisas ausentes.

Conto lido no encontro do Clube de leitura e escrita Prosa na Roda desta semana.

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