O tempo

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O tempo é intenso e não extenso.

Ele olha para trás, para mim, e sorri. Seus dentes são ligeiramente tortos – principalmente os de baixo. Eu sinto meu coração descer aos pés, o meu eu de 14 anos tem um coração muito mais sujeito a descer, subir, sair, pular, do que o meu eu de 28. No entanto, o meu eu de 14 anos era ainda mais perdido, mais deslocado que o de 28 – se é que isso é possível. Numa festa, quase que exclusivamente formada por colegas de turma, lá estava eu, literalmente, fora do círculo de pessoas que se amontoavam à minha frente. Um passo atrás, olhando por cima e para além dos ombros e costas de todos os outros, fora de tudo, solta. Então quando ele olhou pra trás e sorriu, eu sabia que era para mim. Não que isso fosse qualquer novidade – éramos amigos, do tipo que sentam juntos e dividem o livro nas aulas, arranjo que agradava aos professores, eu, nerd e ele, o oposto. Ele, ao me lado, se tornou um tipo de elo, de âncora, me ligando ao mundo externo, às bobeiras dos meus 14 anos, aos devaneios dos meus 14 anos. Ele olhos pretos que pareciam não ter íris, olhos pretos que eram só pupila, como imaginamos que são os olhos de alienígenas. Ele olha pra trás e sorri e sorri com esses olhos totalmente pretos e eu me prendo neles e me aproximo de seu rosto. O meu eu de 28 anos refaz mentalmente a cena:

Eu me aproximo de seu rosto e beijo sua bochecha.

Eu me aproximo de seu rosto e lhe dou um abraço.

Eu me aproximo de seu rosto e pergunto O que tá acontecendo aí?

Eu me aproximo de seu rosto e lhe dou um selinho.

O meu eu de 14 anos se aproxima do seu rosto e, perto da orelha, fala. Ele dá um passo atrás e depois, hesita. E pergunta O quê que você falou? E eu fico parada, fora do círculo de pessoas, olhando pra ele, que está dentro do círculo, mas de costas para todas as outras pessoas e eu olho pra ele como quem implora. E o tempo se dilata entre a gente, na gente, ele continua me olhando, meio rindo, ainda, meio sério, como quem procura uma resposta pra uma grande questão filosófica – de onde eu vim, quem eu sou, existe Deus – e é nessa hora que meu coração deixa de existir, ele para em algum lugar talvez acima de mim, ele some, eu não o sinto mais. E ele decide, heroicamente, dar um passo à frente. E o tempo então acelera e tudo se passa em um segundo: ele anda pra frente no mesmo instante em que seus braços se erguem, no mesmo instante que suas mãos tocam as minhas costas, no mesmo instante em que me pressionam contra ele, no mesmo instante em que sua cabeça afunda no meu pescoço, no mesmo instante em que ele diz Eu também te amo, no mesmo instante em que eu completo mentalmente Como um amigo, no mesmo instante em que meu coração retorna ao peito, no mesmo instante em que me sinto afundar, no mesmo instante em que me arrependo de ter dito que o amava, no mesmo instante em que admiro sua forma de lidar com a situação, no mesmo instante em que percebo a bobeira de tudo isso – meu coração de 14 anos, um pouco mais parecido com o de 28.

 

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