O Verão

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Rio de Janeiro, 2 de Dezembro de 2017

 

Querido amigo,

 

Você consegue sentir?

É aquela época do ano de novo, quando o ar se torna líquido e pegajoso. Você diria que sente uma vibração nesse calor, uma vibração por debaixo daquela das cigarras, como o presságio do caos ou do apocalipse. Segundo você, o ar parece carregado de estática, de uma energia invisível – porém facilmente percebida – como se pudesse nos eletrocutar a qualquer momento.  Essa estação, que pra você sempre significou sofrimento e solidão, que pra todas as outras pessoas é sinônimo de alegria, de férias, de passeios ao ar livre. O cheiro da terra seca no verão me leva de volta à minha infância, quando os dias eram apenas as brincadeiras com os colegas, dias passados na piscina, com a água clorada grudando os cabelos uns nos outros, os olhos ardendo – aliás, o rosto inteiro ardendo.

As suas memórias de infância do verão não envolvem piscinas, praias ou cachoeiras. São lembranças de uma casa sombria, de janelas fechadas de dia e abertas de noite. Você sempre doente, sempre frágil demais para brincar com os outros, para pegar sol, para se expor às toneladas de pólen, ao vento, à água. A casa permanecia fechada como um túmulo e você ficava andando curvado, tentando escapar dos olhos de águia da sua mãe – sempre preocupados, sempre franzidos, sempre indagadores. O seu descanso só existia quando conseguia se esconder nos cantos ainda mais escuros dessa casa já escura.

A cada novo verão ao longo de toda a sua vida adulta, renascia aquele desejo irresistível de se refugiar em algum lugar encoberto (protegido?) e de lá permanecer até o fim da estação. Mas você precisava sair, trabalhar e pegar ônibus lotados – ainda que sempre evitando o lado ensolarado. Você vestia seus óculos escuros e boné sempre, que eram o mais próximo de conseguir manter o seu real desejo: o de um buraco, como o de uma minhoca. Os seus poucos amigos podiam cansar de ligar e convidar para passear, sair, aproveitar o dia. Você ignoraria todos, esperando o inverno, esperando poder retornar, como quem ressuscita.

Você consegue sentir o verão? Sentir a terra secando embaixo de você, ao seu lado, ao seu entorno? Secando como você mesmo seca, agora, se tornando um quase nada, se desfazendo mais e mais, se tornando um com buraco em que está? Você consegue sentir a estação que tanto odiava enquanto vai se tornando parte de um mundo em que não há estações, em que não há tempo? E, mais importante ainda, será que você consegue sentir o descanso, agora que não há nenhum telefonema, nem óculos, nem boné, só a escuridão?

Um beijo saudoso.

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