Ser ou não ser

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Quando me perguntam porque resolvi ser professora, acabo fornecendo uma resposta simples e incompleta. Sou professora porque sempre me interessei por isso, porque era o caminho natural, digo, fugindo do assunto. A resposta mais completa seria, com certeza, ampla demais para um bate papo qualquer.

Sou professora porque na primeira vez que fui tutora, me emocionei lendo as provas dos alunos. Achei mágica a sensação de ler ali coisas que eu tinha explicado em aula e que não estavam contempladas nos textos da disciplina. Confesso que chorei – um pouquinho, mas chorei – com a possibilidade de ter algo a compartilhar.

Sou professora também porque encontrei pelo caminho algumas pessoas lindas que mudaram minha forma de ver o mundo. Professores incríveis. Na graduação, aprendi (ao menos um pouco) como ser mais diplomática, como criticar construtivamente, como sorrir falando de coisa séria, e devo isso a uma professora, em particular.

No ensino médio, um grande mestre me apresentou autores (de literatura e filosofia) que estudo até hoje. O meu interesse por esses assuntos já existia, mas ele me estimulou a ir além, indicou caminhos e fez muito mais do que sua obrigação para isso. Fomos juntos assistir a aulas de pós graduação em filosofia. Ele montou um grupo de estudos de filosofia e nele li, pela primeira vez, Platão. Ouvi falar em vários outros filósofos cujo nome nem conhecia. Veronica, lê esse livro aqui. É muito bom. Lê. Sério, compra. Quer que eu compre para você? Não, não precisa. Lá ia eu, comprando e lendo os livros. Veronica, quais as sugestões de livros pra biblioteca do colégio? Nos tempos em que a pirataria bibliófila era bem menos intensa, em que não havia Amazon e existiam poucos sebos na cidade, o coração palpitava. Lá ia eu sugerindo livros que não estavam disponíveis na biblioteca municipal e que queria muito ler. O muro. A peste. A náusea. O ensino médio foi um momento de leitura frenética. Se bobear, foi a época em que mais li na vida. O que, inclusive, gerou preocupações nos meus pais. Veronica, sai de casa, vai ver o sol, dá uma volta. Veronica, você não estuda não? Eu estudava… Mas também lia durante o café da manhã, no caminho a pé para a escola e, confesso, durante as aulas.

Duas outras grandes professoras na vida. Minha irmã me ensinando coisas é uma das minhas memórias mais agradáveis de ser aprendiz. Veronica, be a é ba. Veronica, olha o relógio, que horas tem? Minha irmã lendo gibis para mim. E depois me apresentando Fernando Pessoa, num livrinho de poemas que partilhávamos. Minha irmã recitando poesias comigo, uma completando a fala da outra. Me ensinando química (que nem só de literatura vive a mulher), revisando meus textos. Veronica, lê Saramago. Veronica, lê Guimarães Rosa.

E por fim, minha mãe, querida professora sempre. Mãe, eu não sei nada, vou reprovar na matéria. Senta aqui, vou te tomar a matéria. Tá vendo, sabe tudo. Para de chorar e fica tranquila. Mãe, eu sou burra, vou largar o mestrado, não dá! Veronica, para de bobeira. Você consegue, ué. Mãe, e se a banca me esculachar? Aí eles que estão errados e são mal educados. Você sabe do seu trabalho, sabe que está bom. Vai lá, explica e pronto.

Mãe, eu não tô pronta pra dar aula! Vou desistir, eu não sei nada! Como vou ser professora assim? Veronica, você vai dar essa aula nem que eu tenha que te empurrar pra dentro da sala. Você tá com tudo preparado, é só ir lá e falar. Vai dar tudo certo.


Essas foram as primeiras experiências que me fizeram entrar em sala como professora. As que me fazem querer continuar… Ah, aí já é uma outra história gigante.

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