O Conto da Aia – Margaret Atwood

The-Handmaids-Tale-book.jpg

“Somos úteros de duas pernas, isso é tudo: receptáculos sagrados, cálices ambulantes.” 

 

Acho que sou uma das poucas pessoas que tem certa preguiça de assistir a séries e filmes e acham mais prático ler os livros nos quais foram baseados. Foi o que fiz recentemente com O conto da Aia. A série vem ganhando muito repercussão e fiquei interessada. Acabei lendo o livro de uma tacada só, num frenesi de medo, nervosismo e admiração. Os comentários abaixo são um conjunto das minhas impressões acerca do livro.

O livro se passa na sociedade de Gillead, que teria levado à cabo os desejos e conclamações fervorosas de alguns grupos religiosos.

O Conto da Aia pinta, pouco a pouco, essa organização social, que exacerba a separação entre homens e mulheres, e entre classes de pessoas. Aias, Marthas, Econoesposas e Esposas, as mulheres são objetos nessa paisagem. Objetos com funções distintas, mas com graus de autonomia quase nulos.

“Ser um homem, observado com atenção por mulheres. Isso deve ser inteiramente estranho. Tê-las observando-o o tempo todo. Tê-las se perguntando: O que ele vai fazer agora? Tê-las se encolhendo quando ele se move, mesmo se for um movimento bastante inofensivo, estender a mão para pegar um cinzeiro, talvez. Tê-las medindo-o, avaliando-o.”

Offred é uma Aia que é protagonista do livro. Conforme fornece sua descrição, começamos a entrever as leis explícitas e implícitas que regem os comportamentos. Códigos de vestimentas, de relacionamentos e de acesso ao conhecimento são restritos severamente. A vida em Gillead nos parece distante, mas ao mesmo tempo, como um futuro possivelmente próximo.

Como chegaram lá? Qual seria a justificativa do livro para um retrocesso social tão grande? Por meio de idas e vindas no tempo, que acompanham o pensamento de Offred, vislumbramos, pouco a pouco, como a mudança teria ocorrido. Diminuição da natalidade, guerras, medo de terrorismo. E, por fim, um golpe de estado – a princípio temporário, mas convertido em uma política permanente.

“Creio que as pessoas estavam com medo. E quando tornou-se de conhecimento público que a polícia ou o exército, ou fossem lá quem fossem, abririam fogo quase que tão logo quaisquer das passeatas começassem, as passeatas pararam. Algumas coisas foram explodidas, agências de correios, estações de metrô. Mas não se podia nem ter certeza de quem estava fazendo isso. Poderia ter sido o exército, para justificar as buscas via computador e as outras, de porta em porta.”

Conforme lemos, somos submergidos nesse universo de  de cerceamento de Liberdade, com o maiúsculo. Toda e qualquer liberdade. Ao mesmo tempo, traçamos os paralelos com a situação real e contemporânea e podemos entrever a possibilidade de nos encaminharmos para uma situação similar e, aparentemente, inescapável.

Ao ler, eu não conseguia evitar de pensar o que eu faria se as coisas chegassem a tal ponto. O que eu faria? Pelos contrastes que oferece, o livro nos permite pensar tais coisas sem, no entanto, nos deixar cair em uma postura idealizada. Compreendemos, junto com Offred, que “O que eu faria?” implica perceber que algo mudou. Implica perceber o contraste entre o antes e o depois, entre o ser livre e o não-ser-livre. No entanto, as mudanças por vezes são sorrateiras. Não nos damos conta de que estão se passando até que, quando percebemos, vivemos em Gillead.

“Estamos fascinadas, mas ao mesmo tempo sentimos repulsa. Elas parecem despidas. Foi preciso tão pouco tempo para mudar nossas ideias a respeito de coisas como essa. Então penso: eu costumava me vestir assim. Isso era liberdade.”

É essa construção, que conecta o presente e o passado no texto, por um lado, e por outro lado, o presente e o futuro, em nossa realidade, que produz o maior assombro. E, para mim, é nisso que reside a força do livro.

 

time-100-2017-margaret-atwood.jpg

 

Sobre a autora:

Uma das maiores escritoras de língua inglesa, Margaret Atwood foi consagrada com alguns dos mais importantes prêmios internacionais, como o Man Booker Proze (2000) e o Príncipe de Astúrias (2008), pelo conjunto de sua obra, além de ter sido agraciada com o título de Cavalheira de L’Ordre des Art et Lettres, na França. Tem livros publicados em mais de 30 idiomas e reside em Toronto, depois de ter lecionado Literatura Inglesa em diversas universidades do Canadá e dos Estados Unidos e Europa. Transita com igual talento pelo romance, o conto, a poesia e o ensaio, e se destaca por suas incursões no terreno da ficção científica, em obras como O conto da aia e Oryx e Crake, ambos publicados pela Rocco.

(Resumo extraído do site da editora Rocco, que publica a autora no Brasil)

Anúncios

1 comentário Adicione o seu

  1. De fato, a gente fica se perguntando o tempo inteiro “o que eu faria nessa situação?”. A personagem tem um certo ativismo passivo… Ela não se organiza em uma resistência, mas, no dia a dia e quando a oportunidade aparece ela agarra. Muito real isso. Fora o fato do fluxo de pensamentos que a autora constrói que é extremamente envolvente. Fora a perspicácia da autora para as crises que o futuro pode abrigar… Amei o livro é a resenha!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s