Da Timidez

 

bagheadDesde que eu me entendo por gente, sempre fui tímida. Envergonhada. Encabulada. Não sei bem a diferença entre os significados desses termos, mas para mim todos querem dizer uma única e mesma coisa: que o coração acelera, as bochechas ficam vermelhas e em chamas por quaisquer motivos. Ou melhor, por qualquer coisa que me coloque em destaque. Lembro de Luis Fernando Verissimo comentando o paradoxo em afirmar que alguém é um tímido notório. Ora, o que o tímido quer é passar sem ser notado, afirma o autor, e ser reconhecido justamente por tal timidez seria o cúmulo. Eu discordo.

Todos os semestres, antes de entrar em uma nova classe sinto um frio na barriga. Sei que do outro lado da porta estarão algo entre 40 e 100 alunos e, embora saiba que provavelmente a atenção deles não vai ficar em mim durante as quatro horas em que ficarmos juntos, sinto-me sob os holofotes. Em minha apresentação inicial, digo logo que sou tímida. Sou, portanto, uma tímida notória. É que Verissimo não percebeu que nós, tímidos, estamos espalhados em todas as profissões e que precisamos aprender a usar da timidez para que ela deixe de ser um defeito tão grave.

Escrever sobre uma característica tão presente em minha vida faz com que eu volte no tempo e recorde diversas situações em que desejei ser engolida por um buraco negro. Uma vez caí subindo a escada do meu prédio. Em outra, fui convidada a dançar quadrilha de surpresa, sem treinar. Eu era bem criança e errei todos os passos – até hoje odeio dançar quadrilha. Quando era aluna e tinha alguma dúvida em aula passava tanto tempo debatendo comigo mesma se valia a pena externalizar minhas questões que perdia totalmente a concentração e me perdia na matéria. Quando a professora de português lia a minha redação diante da turma eu sentia um misto de orgulho e desejo de morrer. A timidez era paralisante.

Então, em torno dos 14 ou 15 anos eu comecei a fazer uns experimentos. Sempre que eu sentia muita vergonha de realizar algo, eu me forçava a bloquear a mente e agir. Frequentemente eu apostava com amigas: aposta quanto que eu saio cantando e dançando Can´t take my eyes of you no meio da rua? E lá ia eu, na pior imitação já vista do Heath Ledger (em 10 coisas que eu odeio em você). A aposta não levava a nada, nem um trocado, mas a uma satisfação interna por ter expandido – minimamente – os limites do meu universo.

Quando eu cresci um pouco mais, percebi que não poderia continuar forçando os meus limites de modo tão absurdo. Imagina entrar numa sala de aula universitária cantando Frank Sinatra a plenos pulmões? Quem me conhece sabe que, além de tudo, eu desafino muito e não tenho nenhum ritmo. Isso não me ajudaria em nada, exceto em talvez ganhar a simpatia de alguns alunos e antipatia de outros.

Talvez os motivos para a timidez excessiva possam variar. No meu caso, acredito que ela esteja relacionada com a tentativa de controlar as coisas à minha volta e a imagem que passo para o mundo. Pouco a pouco, dando aulas e estando – imaginariamente – sob os holofotes eu comecei a perceber que ser tímida talvez não fosse um defeito, um mal a ser extirpado. Comecei a perceber que, se por um lado, não é possível estar no absoluto controle daquilo que somos e fazemos, podemos, por outro lado, escolher como vamos reagir às coisas. Afinal, dizem por aí que somos seres racionais e dotados de capacidade reflexiva. Pois bem. Nem me enterrar em buracos, nem me forçar ao ridículo, adotei uma nova postura. Sempre que possível, rio de mim mesma em aula: das minhas inseguranças, dos meus enganos. Eu mesma dou notoriedade à minha timidez. Ela continua existindo, habitando em mim, mas travestida de comicidade.

Ser tímida não é optativo. Escolher como ser tímida, é.

 

 

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2 comentários Adicione o seu

  1. Camilla disse:

    Excelente texto! Consegui me ver em todas essas situações, e sim hoje uso minh timidez estampada, como arma, para que ela não seja usada contra mim! Da mesma forma que você faz… Rio dela (de mim mesma). Algumas pessoas nem percebem ou não acreditam quando eu falo que sou tímida, mas sou e muito. Aonde vou levo minha timidez, não por escolha! Ela não parece querer me largar! Assim a gente vai levando e vivendo, se expondo quando precisamos, sem medo. É um exercício diário!

    1. Obrigada! Pois é, é difícil, mas enfrentar a timidez faz parte do cotidiano,rs.

      Tímidos do mundo, ao alto e avante!

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