O batom

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Começou com as idas ao banheiro na madrugada. A bexiga não aguentava esperar o amanhecer para se descarregar totalmente. As idas, cada vez mais frequentes e numerosas ao banheiro evidenciaram que ela estava ficando velha. Mas indicaram algo mais.

Um dia, ao acordar, teve um sensação súbita. Seu corpo não respondia exatamente aos movimentos que desejava lhe impor. Era como se andasse num copo de leite, como se estivesse semi adormecida. Se ela já tivesse ficado bêbada – o que nunca tinha feito, graças à Deus – teria achado essa sensação muito parecida com aquela que temos entre alguns copos à mais e a perda total, aquele leve libertar-se de si mesma e do mundo. A sensação emprestava um colorido de irrealidade a tudo o que fazia. Quando sentou no vaso e começou a urinar  teve a certeza de que estava na cama e estava se mijando, Minha Nossa Senhora!, estava se mijando. E então a certeza desapareceu, deixando-a num estado de confusão. Era, novamente, apenas Ana, com seu corpo, percepções e pensamentos de sempre.  Levantou, enxugou-se e tornou a deitar.

Enquanto afundava na cama e no sono novamente atribuiu a confusão ao sono. No dia seguinte, não tinha nenhuma lembrança do que havia ocorrido. Ela não sabia, sequer, que o mesmo ritual (acordar, mijar, sentir-se irreal, ficar confusa, dormir de novo) já estava em curso há alguns meses. Seu sono pesado e sua crença fiel na normalidade do mundo a impediam de ver a estranheza do que ela própria estava vivendo noite após noite.

Acordou, preparou o café, levantou Samantha, deu-lhe um beijo, despachou a criança para a escola. Enquanto a menina ia, feliz, entrando na van, Ana percebeu com uma pontada de tristeza que ela já estava grande, uma verdadeira moça. Confiava na criação que havia dado à neta, mas sabia que com a juventude sempre vinham os maiores problemas. Os hormônios, as tentações, as mentiras…

Sempre aproveitava enquanto Samantha estava no colégio para arrumar a casa, fazer almoço, limpar o banheiro, arrumar os quartos. As tarefas tomavam a sua manhã inteira e, por vezes, a maior parte do dia. Eram só as duas, vó e neta, mas sempre havia muito a fazer. Nesse dia, porém, Ana não queria. Não queria limpar, lavar, varrer, organizar.

Deitou no sofá da sala e fechou os olhos Só por um minutinho. O sol da manhã entrava oblíquo pela janela, um sol de preguiça e cansaço. Ana cochilou rapidamente e despertou a contragosto com a boca seca. Foi até a cozinha e enquanto pegava um copo de água percebeu que não estava vivendo as coisas que vivia: o mundo lhe ocorria como num filme, mas ela não estava no controle de si. Tinha consciência das coisas, mas não como coisas que se passassem a ela. Prendeu a respiração. Será que era isso que se sentia em um AVC? Se fosse grave, quem cuidaria de Samantha?

Deitou-se, novamente, pensando que poderia ser um incômodo passageiro, uma queda de pressão, talvez. Mas a sensação de irrealidade persistia. Se ela associado a sensação com aquela vivida nas madrugadas, saberia que se tratava da mesma coisa, e teria tido a certeza absoluta de que algo estava acontecendo. Mas isso só ocorreria mais tarde. Inquieta, Ana ligou a televisão no canal das orações. Sempre que tinha um tempo livre, entre os afazeres domésticos, gostava de ouvir as orações. Aliás, gostava de ouvi-las mesmo enquanto trabalhava pela casa – hábito podado por causa do valor da energia elétrica. Sua vida financeira não era muito apertada – recebia uma pensão do falecido marido – mas estava longe de ser confortável. Era preciso parcimônia. Gostava dessa palavra. Ela era, afinal, uma mulher parcimoniosa: gastava de forma sóbria, vestia-se de modo simples, como prega a palavra de nosso Senhor.

Sempre havia sido muito devota, muito devota. Havia se segurado na mão de Deus nos momentos de dificuldade – ainda menina – e nunca mais tinha soltado. E então, enquanto sentia que o mundo todo fora roubado dela, como se ela fosse apenas um personagem em um novela (coisa que não assistia nunca, cheias de obscenidades e absurdos), enquanto via as orações na tv, e enquanto fechava os olhos e cochilava ouvindo as rezas, engrenagens em sua mente começaram a funcionar.

Quando Samantha voltou da escola, dançando nas pontas dos pés, como só as meninas de 11 anos conseguem, as engrenagens mentais de Ana se conectaram como em um click. A menina deu um abraço na avó (ainda deitada) e foi andando-dançando para o quarto. Ana parou na porta, estática, olhando a neta que tirava o uniforme suado.

– Que que é isso? Hein, Samantha, que que é isso?

– Isso o que, vó?

– Isso, Samantha, isso na tua, cara, menina! Na tua boca, aí!

– Ah! O batom que a Lala me emprestou. – e, acostumada com a candura da avó, acrescentou, feliz – bonito, né?

Ana sentiu o mundo rodar. A vaidade, a luxúria, a maldade estavam entrando em sua casa e ela nem havia visto. Mas agora percebia. E agora dava-se conta, também, de que a sua confusão, o seu cansaço, a mente enevoada só poderiam ter sido causados por essa mácula, que apodrecia seu pequeno núcleo familiar e que ela desconhecia.

A podridão começava na neta. Na adolescência incipiente, no corpo que crescia e se transformava. Naquela noite, Ana substituiu o carinho – que compunha o ritual diário das duas. Em seu lugar, ajoelharam-se juntas, Ana aos berros (Ajoelha aí, menina, anda!) e rezaram. Horas e horas, os joelhos doloridos, e as duas rezando. Samanta chorava baixinho, enquanto recitava o pai nosso, seguidas e seguidas vezes. Em vez do jantar, jejuaram. A barriga de Samanta doía, mas Ana, em seu fervor religioso, compenetrada em expurgar o mal, não notava fome nem sede, nem dor. A noite acabou, o dia veio. Samanta cochilava ao lado de sua avó, de joelhos ainda.

Ana ainda se sentia leve, irreal (contaminada?). E então ouviu, clara, distinta e cheia de personalidade, uma voz em seu ouvido, a voz da salvação, a voz do senhor, ensinando a redimir os seus pecados.

Enquanto a neta dormia, preparou um café da manhã especial. Acordou Samantha com um beijo. Chamou a menina para a mesa, onde estavam as suas comidas preferidas. Observou enquanto ela comia. E observou enquanto ela caia num sono fundo, pesado, cada vez mais pesado, cada vez mais pesado. A respiração cada vez mais leve, cada vez mais leve. Até parar.

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