A memória está cheia de vazio

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Algumas pessoas gostam de comparar a memória com um palácio. Um palácio mental. Imagino logo um lugar suntuoso, limpo, arejado, organizado. Cada cômodo é grande. E em cada um, muitas memórias dispostas – como um museu, talvez.

Mas eu me pergunto, onde está esse grande palácio? Essa memória que também é a fonte do esquecimento, que faz com que eu não me lembre mais do gosto da cuca de banana da minha vó, que faz com que o eu esqueça do som do chinelo do meu pai no corredor de noite. Onde está a memória, que me faz esquecer o que eu comi ontem no almoço ou hoje no café da manhã? E me fez esquecer do meu primeiro dia de aula na UFRJ e de tantos outros dias de aula que se seguiram? A memória de todos os livros que li, cada uma de suas frases? Dos filmes, pelo menos? Vasculho a mente, encontro um ou outro extratos e mais nada. Se a memória for um palácio, ela deve ter grandes alas completamente vazias, dedicadas ao esquecido.

E onde está também a memória que me faz lembrar do cheiro de pó de arroz impregnando a minha vó e tudo o que pertencia a ela? Essa memória que ataca o corpo – com saudade, ou alegria, ou tristeza – por causa de coisas que só existem no passado? Que me acorda à noite para lembrar dos prazos? Aliás, que memória é essa, que joga com os meus sonhos e neles inscreve mensagens: “você esqueceu de preparar a prova”, “você não corrigiu os trabalhos”?

Onde está essa coisa que por vezes me deixa esquecer e em outras me obriga a lembrar? Que parece agir a seu bel prazer, dando e tirando conforme entende? O que ela fez com as lembranças que eu perdi? Com a visão do mar pela primeira vez, com o frio na barriga ao andar de avião? Como posso não lembrar mais do meu paradeiro em tantos momentos, em tantos dias, e como pode isso ser considerado normal? A memória que é como um átomo: tem mais lacunas do que espaços preenchidos, mais esquecimentos do que lembranças. E se isso for verdade, quem sou eu, que não tenho lembranças de mim mesma?

E que memória é essa, que traz à tona trabalhos e textos e perguntas e ações nas redes toda vez que meu nome é digitado em plataformas de busca? Que memória é essa que as empresas têm de mim? Que memória é essa que me sugere certas propagandas e não outras, que me mostra um mundo mais adequado ao meu “gosto de consumidora”. Como se o meu gosto fosse algo muito meu, muito próprio, como se o meu gosto fosse estanque: pronto, aqui está ele, formado, organizado, preparado. Que memória é essa que me revela o que já sei, que afunila mais e mais o que conheço?

Que memória é essa que não se apaga nunca, que ecoa pelo espaço e pelo tempo, gravando pra sempre quem eu sou, qual é a minha cara, quais são os meus hábitos, os meus interesses, os meus feitos, os eus, o eu.

Que memória é essa, que não é minha, e que me define mais e com mais precisão do que a memória de minha cabeça, a memória do meu corpo, das minhas mãos. O que ela é e onde ela está?

 

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