Nenhum Sr. Pica

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Em uma noite do semestre passado, ao voltar para pra casa depois do trabalho, vi o Facebook de um colégio antigo no qual estudei. Lembro bem que eles tinham algumas palestras com ex alunos, volta e meia. Nada mudou nesse quesito. O ex aluno da vez, um tal Sr Pica-das-galaxias, mora no exterior, é cheio de certificações internacionais, trabalha em bancos, bigode grosso. E ele vai no colégio contar pros alunos como todo o sucesso deles dependerá de seus esforços. Esforços que começam hoje. Aliás, ontem. O Sr. Pica (pra encurtar o nome), era um aluno nota dez, imagino algum coordenador comentando, entre risinhos.

E eu vejo uma foto da sua palestra, um auditório cheio de alunos, bem parecido com algumas salas nas quais dou aula. Ele conta sobre as possibilidades que os aguardam no futuro. Quanto mais trabalho, mais sorte tenho – diz ele, rindo abobalhado.

Eu imediatamente me imagino como palestrante nesse ex-colégio e não consigo reprimir a risada. Sei que eu jamais seria a palestrante de sucesso: os trinta batendo na porta e ainda não acumulei meu primeiro milhão? Ainda moro em meu país? Ando de BRT? Não sou nenhuma Sra. Grelo-Duro das Galáxias…

Mas ainda assim começo a ensaiar o meu discurso fictício:

Queridos adolescentes, a vida é mais do que as notas de vocês. Ninguém dá a mínima pra quanto você vai tirar em física. Ninguém se importa se você é bom em história (muito menos em filosofia e literatura). E se você é como eu era, você é um aluno excelente (como o Sr. Pica também). Mas se você é como eu, talvez também queria seguir uma carreira de menos status – algo na área de humanas, quem sabe.

E se você é como eu e vive no mesmo mundo que eu, isso significa: nada de carro da empresa, nem de cheques gordos. Tentarão (talvez já tenham tentado) te convencer de que a carreira que você está escolhendo está aquém de suas capacidades. Como se algumas profissões simplesmente absorvessem aquela massa de pessoas incapazes de alcançar os empregos verdadeiramente desejáveis.

E se você persistir nessa ideia idiota de estudar filosofia, ou história ou, Deus me livre, psicologia (“por que não psiquiatria, que é a mesma coisa, só que na medicina?”), prepare-se.

Nós temos muitos privilégios em nosso favor e não precisamos passar por um quinto das situações que outras pessoas passam. No entanto, preparem-se para ver claramente que o mundo não se importa com o nosso investimento pessoal, com a nossa dedicação e amor.

O mundo se importa com os Srs. Pica.

Vocês vão chegar na beira dos trinta andando de ônibus e economizando nas compras do mercado e não darão palestras no colégio sobre o futuro feliz e brilhante que nos aguarda a todos.

Mas talvez percebam que a carreira não é uma medida da capacidade, que o dinheiro não é uma medida do empenho, que esse “sucesso” não é uma medida de nada. E que, mesmo com o futuro sombrio que vislumbramos, mesmo com as dificuldades diárias, talvez vocês sorriam voltando para casa de ônibus, pensando que trocam, a qualquer dia, o título de Sra. Grelo-Duro por um outro… talvez até mesmo pelo de Profeeeeeeeee.

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1 comentário Adicione o seu

  1. O dinheiro não mede a capacidade? Creio que não mesmo, já que a linda carreira de Professor é tão desprivilegiada financeiramente! Um erro absurdo! Triste… né?!

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