Finalmente encontrei

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Quando eu era criança minha mãe era cheia de simpatias. Tinha a pra visita indesejada ir embora, a pro sol sair, algumas para descobrir com quem você ia casar, pro cabelo crescer, pra emagrecer… mas de todas essas, duas foram as mais marcantes. Eu e minha irmã nunca fomos as pessoas mais organizadas. Era comum perdemos as coisas pela casa. Aí íamos atrás da mãe perguntar se ela tinha visto – a blusa x, o brinquedo y, o livro z. A mãe falava pra gente pensar o que tínhamos feito da última vez com aquele item. Às vezes retraçávamos os nossos passos pela casa e funcionava. Mas de outras ele teimava em ficar perdido. Aliás, lembro que cheguei a achar que tinha algum duende escondendo as minhas coisas. Nos casos mais persistentes, tentávamos o método do São Longuinho, simpatia famosa que consiste, nada mais, nada menos, do que em oferecer três pulinhos ao Santo caso ele ajude a encontrar o objeto desaparecido. Eficácia de 60%, juro. Eu nunca entendi bem para que o santo queria nossos pulinhos, mas também não entendo o escambo envolvido na maior parte das promessas, embora admire enquanto ato de fé. De todo modo, São Longuinho é ótimo, mas não é perfeito. Ele às vezes não vem ao nosso socorro. Talvez sua cota de pulinhos pelo dia já esteja cheia, talvez ele ache que é muito esforço vir correndo buscar um objeto largado sabe-se lá onde pra ganhar só uns pulinhos. Olha que já até tentei aumentar a promessa – sempre de três em três, pois nunca se sabe, pode ser algum número da sorte do santo – mas nem assim consegui convencer o danadinho.

De todo modo, minha mãe me ensinou uma outra simpatia que era batata. Naqueles casos bem difíceis, nos momentos de desesperança total, quando o objeto parece ter sido sugado por um buraco negro, capturado por um saci Pererê, desintegrado no espaço, só havia uma opção. O jeito era esconder um copo com a boca para baixo. A gente botava o copo embaixo da pia, fechava o olho e ficava pensando no tal objeto perdido. Deixava o copo ali, de castigo, e ia fazer as tarefas da vida. Eis que o objeto aparecia. 90% de garantia, juro – é que naqueles 10% os objetos realmente levam algum fim obscuro, um dos grandes mistérios do mundo.

Um bom momento para encontrar objetos perdidos é na mudança de uma casa para outra. É pá-pum. você tem que mexer em tudo, desmontar os moveis todos, tirar peça por peça de dentro do armário. É inevitável encontrar algumas surpresas. Aliás, quanto menos minimalista a pessoa for, mais surpresas ela vai encontrar. E, embora a moda de hoje em dia seja a decoração clean, o estilo nórdico e a limpeza da Marie Kondo, eu continuo sendo uma grande colecionadora de lembranças, badulaques, bibelôs, livros, cartões postais, fotografias, papéis de todo tipo. O meu estilo maximalista (isso existe, já até procurei na internet) me torna especialmente apta a ter tal tipo de experiência. E não deu outra.

Fui meio nômade durante uns dez anos da minha vida e na minha última mudança (até o momento), ao tentar equilibrar o desespero para acabar a mudança rápido e a diligência em cobrir cada centímetro quadrado do meu apartamento (de, graças a Deus, pouquíssimos metros quadrados) encontrei um desses objetos perdidos e esquecidos há muito tempo. Foi assim. Eu estava sentada no chão da cozinha, a porta do armário da pia aberta da minha frente. eu ia tirando as panelas e colocando numa caixa de papelão da melhor forma possível. Fui esvaziando a prateleira e me deparei com ele ali. Já estava até meio ruço. Tinha a marca certinha da poeira em volta dele: o copo embaixo da pia, esquecido de castigo há nem sei quanto tempo, aguardando o reencontro com algum outro objeto – perdido ou recuperado tanto tempo antes que já nem sabia mais. Finalmente, encontrei. Pelo menos o copo que me ajudava naquela minha busca.

 

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1 comentário Adicione o seu

  1. Oi, Vê!
    Aqui é a Fê (a do prêmio de Brasília).

    Que crônica mais maravilhosa! 🙂
    Deu vontade de ler um livro cheio delas.
    Sou dessas que, embora não me mude com frequência, desmonto a casa toda até encontrar o que perdi. uahhahaha
    Nunca tentei a simpatia do copo, mas saber dela é conhecimento bem-vindo.

    Beijos!

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