Cenas cariocas: Etiqueta

Lembro como se fosse ontem, embora já tenha mais de uma década, de quando comecei a cursar psicologia. O curso era em tempo integral, e rapidamente a UFRJ se tornou meu lar longe do lar. Os seus jardins, os pátios, a biblioteca com cheiro de mofo… reconfortante.

Se a UFRJ era minha segunda casa, o ônibus era a terceira. Média diária de 4 horas no ônibus (duas de ida, duas de retorno) é o suficiente para uma pessoa aprender a fazer praticamente tudo no transporte público. E isso nos tempos anteriores aos smartphones. O tempo em que um mp3 player era o ápice da modernidade (como eu invejava os amigos que vinham me pedir pilhas pois as deles tinham acabado e eles queriam ouvir músicas voltando para casa!). Naquelas quatro horas era preciso ser criativo. Dormir, tomar café da manhã, almoçar, jantar, passar maquiagem, ler livros e mais livros, decorar uma letra de música. Já vi gente tirando sobrancelha, cortando unha, mas nunca me aventurei nessas atividades.

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Também aprendi as regras de convivência implícitas para o uso dos ônibus e, dia desse, irritada com a falta de etiqueta de um dos passageiros, comecei a elencar mentalmente as coisas que já vi serem feitas, apesar de ferirem, claramente, o manual da boa convivência onibulística. Não sei se essa lista é exclusividade minha ou se sou apenas eu que sou chata para o contato humano, mas aí vai:

  1. Dois corpos não ocupam o mesmo lugar: As regras são claras. Se o coleguinha está num local, não adianta você se espremer. Ele não vai mudar de tamanho só porque você quer ficar no mesmo lugar que ele.
  2. Cada um por si: Se segure. Não é legal se escorar nos outros passageiros nos momentos de freiada.
  3. Tudo que é solitário deve permanecer solitário: se existem bancos totalmente vazios, não sente do meu lado.
  4. Cada um no seu quadrado: Se o ônibus não está completamente lotado, evite parar em pé justamente atrás de mim. Parece que tem pessoas que sentem necessidade de viajar com o traseiro colado no dos outros.
  5. Aceite que dói menos: se o ônibus estiver lotado, não adianta resmungar porque estão esbarrando em você. Vai acontecer. Você vai tomar mochilada, bolsada e barrigada. (A não ser que o caso seja de assédio. Aí vale mais do que resmungar. Reclama mesmo, denúncia, faz um escarcéu).
  6. Onde há fumaça, há fogo, e no ônibus não deve  haver nenhum dos dois: Não acenda incenso. Parece básico, mas pelo visto, não é.
  7. Onde há fumaça, há fogo, e no ônibus não deve  haver nenhum dos dois (2): por mais estressante que tenha sido o seu dia, por mais longa que esteja a viagem de ônibus, não fume cigarro. Nem maconha. Novamente, o que parece básico, mas não é.
  8. Se beber não dirija: quem já pegou ônibus no carnaval talvez já tenha presenciado essa cena. O motorista para, chama um ambulante e pede uma latinha de cerveja. Depois toca a viagem, como se nada estivesse acontecendo, a latinha numa mão e o volante na outra.
  9. Cão que ladra: não ameace de morte nem os passageiros nem o motorista. Já presenciei uma cena em que o motorista, já pressionado pela empresa, ainda sofreu agressões verbais e físicas de um passageiro que queria obrigá-lo a não parar nos pontos de ônibus (pois, realmente, o carro já estava lotado). Resultado: para tudo, chama a polícia e leva o sujeito nervoso pra D.P.
  10. Não é praia nudista e não tá tudo liberado!: Não fique nu. Sério. Já presenciei e nem teria me incomodado se não tivéssemos que parar, chamar polícia e corpo de bombeiros.

*Infelizmente não consegui localizar o autor da imagem deste post.

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