Cacildis, Tofuzis!

Tofu-8

Seis anos atrás adotei uma gata. Eu passava a maior parte do tempo sozinha com ela e, como muitos que moram sozinhos, logo descobri o irresistível hábito de conversar constantemente com a Tofu. Acordar e dar bom dia, de noite, chamar para dormir. E ao longo do dia comentar coisas aleatórias sobre o clima, o tempo de cozimento de arroz ou a preguiça de limpar a casa.

Sei que algumas pessoas juram de pés juntos que seus amados pets sabem quando estão triste ou felizes e, até mesmo entendem completamente tudo aquilo que dizem.

Eu nunca afirmei nada disso. Na verdade, estou convencida de que Tofu não reconhece meus sentimentos. Caso contrário, teria que aceitar sua completa apatia frente ao meu sofrimento como um claro indício de psicopatia, demonstrada repetidas vezes, por exemplo, sempre que estou chorando e ela se afasta de mim.

Ao invés de suspeitar que uma psicopata mora aqui ou que estou dormindo com um inimigo (literalmente) na minha cama, prefiro aceitar que animais, entre sua extensa lista de qualidades, tem como principal o fato de não sofrerem dos efeitos,  nocivos ou não, da palavra.

Conversar com a Tofu era apenas uma forma de exercitar a fala e os ouvidos nos dias mais solitários ou talvez um modo de pensar.

Mas, eis que, recentemente, percebi um fenômeno curioso… Tofu anda doente (bronquite e pneumonia) e precisando de muitos remédios que ela faz de tudo para evitar: alguns líquidos, administrados por seringa na boquinha, uma bombinha de asma e até nebulização.

Depois de algumas sessões de tortura – minha e dela – envolvendo mãos quase mordidas, correria pela casa e remédios voando pelos ares, comecei a suspeitar de que talvez ela realmente entenda o português.

Eu e meu namorado/assistente nos flagramos constantemente em conversas cifradas cujo único objetivo é ludibriar o felino.

A coisa é mais ou menos assim:

  • Acho que tá na hora do nénédsss.
  • Você pega o comprmins?

Ou

  • Daqui a meia hora a gente tem que fazer a nenuninação.

Ou ainda, em uma clara inspiração Mussoniana:

  • Tô trazendo a seringuis.

 

Tudo isso é dito entre dentes e o mais baixo possível, para que os ouvidos afiados (e entendedores, certeza), não desconfiem que o tratamentis está a caminho.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s