O Soco no Estômago

Design sem nome (1)

Um soco no estômago. É essa a sensação que tenho ao ouvir as suas palavras. Você está correto, mais do que correto. Eu realmente me entreguei rápido demais, mergulhei intensamente em meus relacionamentos prévios. Tive mesmo um número muito grande de namorados e por períodos muito curtos de tempo. Inevitavelmente, as lágrimas chegam enquanto eu repasso mentalmente todos eles durante a nossa conversa. Você está certo, eu tento dizer. Sua mandíbula cerrada, os olhos fixos na estrada à frente. Eu já não consigo discernir nada, o carro se torna um borrão escuro, os postes do lado de fora – grandes estrelas embaçadas – aparecem a intervalos cada vez maiores, enquanto as estrelas do céu vão se multiplicando. Tem lua? Não sei. A música no rádio parece abafada, meus olhos e ouvidos turvos. Estou pendurada nas suas frases, mas sinto a sua rigidez, sua mão apertando o volante.

A primeira vez em que dormimos juntos – eufemismo estipulado e mantido com rigor por você – a primeira vez em que dormimos juntos, me admirei com a sua força. Suas mãos pareciam alicates de pressão, segurando meu punho, minha cintura, meu cabelo. Suas mãos se fecharam no meu pescoço e me assustei. E gostei de me assustar. Você era outro quando estava comigo. Era outro! dizia. Eu via que isso era verdade – e inevitavelmente me orgulhava de provocar tal efeito –, quando éramos só nós dois você perdia a fachada de controle, se libertava, fechava as mãos no meu pescoço e gozava.

Agora, no carro, a mesma força no volante, o volante firme nas suas mãos, mas sei que não é prazer o que você sente – sente… o quê? Eu sinto algo como medo, me encolho no carro do seu lado, sem ousar chorar de verdade, mal vendo por onde seguimos. Confio na sua direção, você que nunca esquece os caminhos, que aprende qualquer rota de primeira, que nunca se perde. Eu estou entregue às suas mãos, que esmagam o volante como ao meu pescoço. Eu me encolho, temerosa, culpada. Você está certo.

Estávamos almoçando juntos e, sobre o prato de massas, você disse que minha profissão era inútil, que a dissertação recém-defendida não importava a ninguém, trabalhos teóricos não prestam, jamais serão lidos! Você está certo, eu pensei, mas minha voz ia ficando aguda enquanto tentava me defender, dizer que não era verdade, prática e teoria caminham juntas!, mas a voz cada vez mais aguda, você sempre correto e eu derrotada, recostada na cadeira, um pouco menor. Você disse: vou fazer trabalhos práticos, vou mudar o mundo! A sua pesquisa sim, a sua pesquisa seria frutífera, ficaria marcada na história, assim como o seu nome.

Seguimos no carro, o rádio chia conforme nos afastamos da cidade. Você o desliga. Não temos cds ou mp3 e o silêncio nos cobre. Meus olhos agora secos, minha garganta seca, minhas mãos frias paradas no colo, eu nem me mexo. Olho para fora, sinto o seu corpo ao lado do meu, frio, seus olhos ainda fixos à frente. Eu posso ouvir sua respiração, posso imaginar seu peito subindo e descendo apenas poucos centímetros, seu abdome totalmente rígido, você todo rígido, como uma estátua.

Eu criei uma teoria para explicar como você permanece assim tão magro, assim musculoso. Você fica o dia todo com os músculos contraídos, sem sequer perceber, você queima mais calorias que as pessoas comuns. Você, que não relaxa nem por tempo suficiente para ir ao banheiro, fazer um xixi, bater um papo, mandar uma mensagem. Você está o tempo todo firme. Seus ideais firmes, você inteiro um referencial estável, sempre no mesmo lugar. Seus músculos, sempre em uso, fazem sua figura permanecer em forma, apesar do que coma, apesar da falta de atividades físicas. Na realidade, as pessoas é que não percebem, mas você está se exercitando durante o dia inteiro.

No carro, o silêncio. Você olha para mim e não sei o que vejo nos seus olhos. Não sei te entender. Quero falar alguma coisa, desculpa, fiz besteira, você está certo, o que eu fiz foi errado, não importa o que eu fiz, foi errado. Você diz, por quê? Por que você saiu com essas pessoas? Você chama os ex-namorados por apelidos pejorativos, o traficantezinho, o burro, o sei lá o quê. Você pergunta por que você saía com eles? E eu não sei o que responder. Eu era jovem? Eu me apaixonei? Eu não tinha nada melhor para fazer e transar com uma ou outra pessoa não parecia má ideia? Desculpa, desculpa, desculpa, o que eu posso fazer? Se eu pudesse voltar no tempo, eu não faria nada disso. Talvez eu fizesse tudo de novo, penso, mas quase tenho receio de pensar. E se algo em mim transparecer? E se meu rosto denunciar que meu arrependimento não é tão completo assim? Não posso. Preciso me arrepender profunda e sinceramente. Esse é o segredo para o perdão. Não é isso o que a igreja diz? Então eu me arrependo, peço desculpa, quase me prostro aos seus pés, desculpa, desculpa. Suas mandíbulas ainda travadas. Depois de um tempo a raiva passa.

Eu fazia francês aos sábados, saía da aula às 12 horas, te encontrava e íamos para a biblioteca. Minha barriga roncava de fome, mas eu esperava ao seu lado. A biblioteca só fechava em torno de 13 horas. Você precisava estudar, precisava passar na prova, precisava terminar a apostila. Eu tentava me concentrar em alguma leitura, mas minha mente estava cansada depois de quatro horas de aula. Eu queria ficar com você, ocupado de segunda a sexta, então restava o sábado, antes do almoço, na biblioteca. Pegava um livro, folheava, pensava sobre onde poderíamos almoçar. Você ficava de cabeça baixa, escrevendo na apostila. 12:30. 13 horas. 13:15. Só saíamos quando nos expulsavam, minha barriga doendo, minha bunda dormente de ficar sentada. Um dia saí mais cedo, ia te esperar do lado de fora. Fui dar um telefonema ou tomar uma água, não sei mais. Encontrei um colega de faculdade. Há anos não nos víamos. Como você está? Bem, estou noivo, estudando para concurso, quero casar. E você? Tudo bem, mestrado, aula de francês, esperando meu namorado. Tchau. Tchau. Sentei num banco do lado de fora da biblioteca e fiquei te esperando. Mascava um chiclete para enganar a fome. 13:20. Você saiu da biblioteca, pegou seu material no armário e passou direto por mim. Eu levantei, fui atrás. Conseguiu estudar?, perguntei como quem tenta se desculpar preventivamente – já pressentia algo ruim. O que aconteceu? Eu me esforçava para acompanhar o seu passo. Hein? O que foi? Você não respondia. Eu era um fantasma do seu lado – meu rosto, pálido. E então você se virou para mim e disse eu te vi com ele!, vocês conversaram por horas, hein?, quanto assuntos vocês dois têm, hein? Eu fiquei sozinho na biblioteca enquanto você ficava conversando com ele!

O clima entre nós retorna ao normal –  ou, pelo menos, ao nosso normal. Você conta sobre o dia no trabalho, reclama de uma colega que quer te sacanear, ela quer que eu me queime! eu concordo e a crítico também. Fazemos planos para quando chegarmos ao hotel. Rimos. A viagem é longa, mas finalmente estamos conversando. De alguma forma, o assunto muda. Você pergunta sobre determinado ex-namorado. Como voltamos para esse assunto? Eu não percebo a cilada. Respondo, como sempre respondo a essas coisas, rindo e sem levar a sério. Você pergunta detalhes e eu forneço. E então você grita Por quê?, Por quê? Você fala essas coisas para me magoar, você quer jogar na minha cara que eu sou inexperiente, que você é melhor do que eu? Agora vou ficar imaginando você com esses homens!

Um dia você apareceu na minha casa completamente calado. O que eu fiz? Você estava no seu estado entre humano e pedra. Não me dizia o que tinha acontecido, permanecia quieto. Sentou no sofá e não olhou para mim. Quer uma água? Quer café? O que eu fiz? Você me mostrou um grupo de colegas de trabalho no whatsapp. Só tinha homens e eles mandavam vídeos e fotos pornô. Eu não entendia o que isso tinha a ver comigo. E se fosse você?, você meio gritou, e se mandassem um vídeo seu? Eu não compreendia o que estava acontecendo. Mandaram vídeo meu? perguntei, confusa. Não!, não mandaram, mas o tempo inteiro eu fico pensando que poderiam vir a mandar, caso algum dia alguém tenha te filmado!

No carro, luto novamente contra o choro. O silêncio retorna e eu cruzo os braços. Essa posição é ideal. Finco as unhas da mão direita na pele do braço esquerdo, nas palmas das mãos, nos ombros. Enquanto você olha fixo para frente, minhas unhas afundam um pouco mais. Tento não pressionar muito – pode sangrar. O tempo também é um fator importante. Tempo demais e vou ficar com marcas arroxeadas em forma de meia lua. Troco a mão que faz a pressão com alguma frequência. A dor alivia algo em mim.

Quando fomos à igreja com os seus pais, você subitamente congelou do meu lado. No meio da missa, senti sua mão rígida na minha, como se quisesse esmagar os meus dedos. Depois, nós quatro entramos no carro. Você não me respondia, não respondia a sua mãe – o seu pai, como sempre, ia em silêncio. Quando chegamos em casa, sentei na cama e esperei. Você estava olhando para o coroinha!, você estava dando mole para ele o tempo todo!

A viagem de carro prossegue. Você vê algo na estrada e comenta comigo, rindo. Eu rio também, expiro e relaxo um pouco, só um pouco. Coloco uma das mãos sobre a sua coxa, você sorri e sinto que está tudo bem. Conto sobre um livro que estou lendo e me distraio. De repente, você me pergunta qual o endereço e eu não sei bem responder. Procuro no celular, mas estou sem internet. Eu rio, comentando que nunca vamos chegar no destino, a viagem que não acaba. Você se irrita e não fala mais comigo pelo resto do percurso. Chegamos no estacionamento. Você para o carro, mas não sai nem tira o cinto de segurança. Suas mãos estão coladas no volante como algum boneco de cera bizarro. Eu toco no seu ombro, levemente, mas você não me olha. Você olha para o nada e aperta o volante. Eu não sei o que fazer, arrisco um Vamos? Já chegamos… você grita que eu ri de você, que a culpa é minha por nos perdemos, que poderíamos ter parado em alguma favela, que poderíamos ter morrido. Eu fico parada do seu lado, esperando.

O golpe vem, de súbito, bem no meio do estômago, dessa vez não mais metafórico. Muito mais literal do que eu gostaria, muito mais real do que posso admitir. O soco recai sobre mim e eu nem me encolho, apenas fico esperando.

* Esse texto foi escrito para o Clube de Leitura e Escrita Prosa na Roda e faz parte da coletânea de contos do prêmio Machado de Assis 2017, promovido pelo SESC – DF.

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