A realidade movente

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Ao viajar ao Peru alguns anos atrás, decidi visitar a cidade de Puno e conhecer o Titicaca. O lago parecia quase uma miragem. À beira de uma cidade confusa, agitada, de pessoas e passos acelerados, ele se espraiava. Decidi fazer um passeio de barco por suas águas.

O lago é fronteira com Bolívia, cujas margens podíamos avistar – turistas boquiabertos – do lado de cá. As fronteiras, porém, não eram apenas geopolíticas, mas se desenhavam entre o sono e a realidade, recortando e erigindo no meio do lago as ilhas de Uros. Ilhotas artificiais e flutuantes feitas de totoras – uma espécie de capim aquático da região – que estariam sempre à deriva, caso não fossem ancoradas. As ilhas são habitadas desde períodos pré-colombianos, sobrevivendo principalmente da pesca e, atualmente, do turismo. O seu surgimento decorreu da necessidade de se protegerem e evitarem inimigos. Pequenas comunidades flutuantes foram erguidas no meio do lago de modo a permitir a fuga conjunta de todo o grupo para longe de seus inimigos. A residência de toda a comunidade poderia se modificar com um romper de linhas. As ilhas também se desgastam o tempo todo. As forças da água, do ar, do próprio tempo desmancham seus agregados de totoras. Depois de criada, cada ilha precisa ser refeita constantemente.

Uma expressão comum como “mantenha os pés no chão” é totalmente ressignificada nessas ilhas. Normalmente queremos dizer para o nosso interlocutor que se mantenha firme na realidade sólida das coisas. Em Uros, o chão, é macio e movente, como um colchão inflável. Manter seus pés firmes, lá, é manter-se sempre em movimento. Dificilmente pensamos na solidez das coisas como algo que precisa ser refeito, como algo que depende de trabalho, de dar nós, de amarrar cordas – que podem se romper a qualquer momento. E, no entanto, não será esse o solo mesmo da realidade?

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